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Lenda judia do Talmude PDF Imprimir e-mail
     O mundo inteiro estava comovido e encantado pelos milagres do Êxodo. O nome de Moisés estava nos lábios de todos.
Noticias do grande milagre chegaram também ao sábio rei de Arabitão, que chamou o seu melhor pintor e lhe ordenou que fosse até Moisés, pintasse o seu retrato e lho trouxesse. Quando o pintor voltou, o rei reuniu todos os sábios do seu reino, hábeis na ciência fisiognomónica, e pediu-lhes a eles que definissem pelo retrato o carácter de Moisés, as suas qualidades, inclinações, hábitos e a origem do seu poder miraculoso.
     “Majestade”, responderam os sábios, “este é o retrato de um homem cruel, orgulhoso, ávido de riquezas, possuído pela ânsia do poder e por todos os vícios existentes no mundo.”
     Essas palavras suscitaram a indignação do rei.
     “Como pode ser possível”, exclamou ele, “que um homem cujos feitos maravilhosos se repercutem por todo o mundo possa ser assim?”
     Iniciou-se entre o pintor e os sábios uma discussão. O primeiro afirmava ser o retrato de Moisés que pintara o mais fiel possível, enquanto os sábios sustentavam que o carácter de Moisés tinha sido determinado absolutamente de acordo com o retrato.
     O sábio rei do Arabitão decidiu verificar qual das partes em disputa tinha razão e ele próprio partiu para o acampamento de Israel.
     Desde o primeiro momento, o rei se convencera de que o rosto de Moisés fora retratado de forma impecável pelo pintor. Ao entrar na tenda do homem de Deus, ajoelhou-se, fez uma reverência e contou a Moisés a discussão entre o artista e os sábios.
     “De início, até ver o vosso rosto”, disse o rei, “pensava que o artista o havia pintado mal, pois os meus sábios são homens com muita experiência na ciência da fisiognomonia. Agora convenci-me de que são homens sem mérito algum e de que a sabedoria deles é vã e inútil.”
     “Não”, respondeu Moisés, “não é como pensais. Tanto o pintor como os fisiognomonistas são homens altamente habilitados e ambas as partes estão certas. Sabei que todos os vícios de que os sábios falaram me foram destinados pela Natureza e talvez num grau muito superior ao que eles encontraram no meu retrato. Mas lutei contra eles durante muito tempo com intensos esforços da vontade e gradualmente superei-os e suprimi-os em mim mesmo, até que todas as coisas que se lhes opunham se tornarem minha segunda natureza. E nisso reside o meu maior orgulho.”
 
Citado por P. D. Ouspensky em Um Novo Modelo do Universo, Editora Pensamento
 
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