Português (Portugal)English

Hermes society

A VIA SUPREMA SEGUNDO O YOGA TIBETANO PDF Imprimir e-mail
Texto traduzido por membros da Associação Hermes

Apresentação
 
Este breve tratado constitui em primeiro lugar uma introdução à arte do yoga, que é a arte do controle do espírito individual e da sua fusão com o espírito universal. Mas, não obstante certas formulações particulares, reconhecem-se nele os mesmos preceitos e advertências que nos legaram outras tradições, tanto as do bramanismo ou do taoísmo, como as do budismo indiano ou do extremo-oriente, como a mística judaica, cristã ou muçulmana,como a Antiguidade greco-romana por meio das escolas pitagórica ou


estóica, por exemplo. Não é demais considerar esta obra como uma introdução geral a um empreendimento espiritual universal.Neste texto, os termos religião, vida religiosa, votos religiosos, não devem ser identificados com o seu falso significado moderno. Não se trata aqui, de maneira nenhuma, de uma atitude excessivamente espiritual apoiada em postulados fundadores absurdos, tal como é  erroneamente tratada em quase toda a parte no mundo, desde há alguns séculos. A religião ( do latim relegere : religar,  juntar de novo) é precisamente esta tentativa de especificação do individual, para permitir a sua reunificação com o universal. Passa-se o mesmo com os termos devoto, piedade, doutrina, fé, que devem ser ligados a este empreendimento, aos que o perseguem, às práticas que lhe favorecem o sucesso, às disposições mentais que exige.
Segundo as tradições indiana e tibetana, o conteúdo deste livro, transmitido oralmente desde a mais alta Antiguidade, foi transcrito pela primeira vez no século XII por Dvagpo-Lharje, apelidado Gampopa, por referência ao primeiro soberano budista do Tibete, Strong-Tsan-Gampo, falecido cerca de 650. Chamado A Via Suprema ou O Rosário de Pedras Preciosas, pertence ao ensinamento da escola Kagyupa cuja cadeia iniciática se manteve desde o século X a partir da Índia, e de que Marpa de Lohbrak foi o iniciador no Tibete. O texto foi seguidamente transmitido e recopiado, de gerações em gerações, pelos yogins da escola Kagyupa, que o decoravam e de que cada um fazia uma cópia.
Nos anos 1919 e 1920, o Lama Kasi Dawa Samdup copiou-o a partir do manuscripto de um yogi errante, Digom Sönan Rinchen, e traduziu-o para a língua inglesa. O doutor Evans-Wentz, seu discípulo, publicou-o em Inglaterra em 1931.
 
Homenagem ao precioso Guru !
 
PRÓLOGO
 
Quem quer que deseje libertar-se do pavoroso mar das existências sucessivas, tão difícil de transpor, graças aos preceitos ensinados pelos muito inspirados sábios Kagyupa, deve prestar homenagem a estes mestres de glória imaculada, com virtudes tão inesgotáveis como o oceano e cuja benevolência infinita abrange por todo o universo todos os seres passados, presentes e que hão de vir.
Eis, deitados em escrita para uso dos que buscam sageza divina, os preceitos mais altamente estimados, chamados “A Via Suprema, o Rosário das Pedras Preciosas”, tais como foram transmitidos a Gampopa por esta dinastia inspirada de gurus, alguns directamente, outros indirectamente, emanações do seu amor por ele.
 
 
I
AS DEZ CAUSAS DE ARREPENDIMENTO
 
O discípulo que procura a libertação e a omnisciência do Buda deve primeiro meditar sobre estas dez coisas que são causas de arrependimento:
 
1.   Tendo sido dotado de corpo humano, difícil de obter, livre e dotado de numerosos talentos, malbaratar a sua vida seria causa de arrependimento.
 
2.   Tendo sido dotado deste corpo humano, puro, livre  e dotado de numerosos talentos, morrer como homem não religioso e cheio das preocupações do mundo seria causa de arrependimento.
 
3.   Esta vida humana no Kali-Yuga (ou idade das trevas) sendo tão breve e incerta, dissipá-la nos empreendimentos e nos projectos deste mundo seria causa de arrependimento.
 
4.   O espírito de cada um procedendo da natureza do espírito original não criado, deixá-lo perder-se e afundar-se no pântano das ilusões deste mundo seria causa de arrependimento.
 
5.   O mestre espiritual, sendo o guia na via, separar-se dele antes de atingir a iluminação seria causa de arrependimento.
 
6.   A fé e os votos religiosos, sendo o veículo que conduz à emancipação, vê-los fracassar pela violência das paixões incontroladas seria causa de arrependimento.
 
7.   A perfeita sabedoria, sendo reconhecida em si-mesma pela graça do mestre espiritual, dissipá-la na selva das contingências deste mundo seria causa de arrependimento.
 
8.   Vender como uma mercadoria a sublime doutrina dos sábios seria causa de arrependimento.
 
9.   Na medida em que todos os seres vivos são nossos parentes benevolentes, sentir aversão por um só dentre eles, e assim renegá-lo ou abandoná-lo, seria causa de arrependimento.
 
10.  A flor da juventude, sendo o período de desenvolvimento do corpo, da palavra e do espírito, desbaratá-la na indiferença vulgar seria causa de arrependimento.
 
Estas são as dez causas de arrependimento.

 
II
SEGUEM-SE DEPOIS
AS DEZ EXIGÊNCIAS
 
1.   Tendo estimado as suas próprias capacidades, deve-se adoptar uma linha de conduta segura.
 
2.   A confiança e o zelo são necessários para conseguir executar as ordens de um instrutor religioso.
 
3.   Para evitar enganar-se na escolha de um guru, o discípulo deve conhecer os seus próprios defeitos e virtudes.
 
4.   Uma grande acuidade intelectual e uma fé robusta são indispensáveis para se por de acordo com o espírito do instrutor espiritual.
 
5.   Uma vigilância de cada instante, assim como um espírito vivo e modesto são necessários para preservar o corpo, a palavra e o espírito de qualquer mácula.
 
6.   Uma verdadeira armadura espiritual, assim como um intelecto poderoso, são necessários à realização dos votos do coração.
 
7.   Livrar-se definitivamente dos desejos e doa apegos é necessário para quem entenda libertar-se de qualquer entrave.
 
8.   Para adquirir o duplo mérito (causal e espiritual), resultante de intenções justas, de acções justas e de motivações altruístas, é necessário nunca abrandar os seus esforços.
 
9.   O espírito, banhado de amor e de compaixão, tanto em pensamento como na acção, deve sempre ser posto ao serviço de qualquer ser sensível.
 
10.  Pela escuta, compreensão e sabedoria, deve-se aperceber a natureza de todas as coisas para não se cair no erro de considerar como reais a matéria e os fenômenos.
 
Estas são as dez exigências.
 
 
III
AS DEZ COISAS A REALIZAR
 
1.   Liga-te a um instrutor religioso dotado do poder espiritual e do completo conhecimento.
 
2.   Procura como eremitério uma solidão ímpar e cheia de influências psíquicas benéficas.
 
3.   Procura amigos com crenças e hábitos parecidos com os teus e nos quais possas depositar a tua confiança.
 
4.   Toma atenção aos malefícios da gula e come apenas suficiente comida para te manteres em boa saúde durante o teu período de recolhimento.
 
5.   Estuda com imparcialidade os ensinamentos dos grandes sábios de todas as escolas.
 
6.   Estuda as ciências benéficas da medicina e da astrologia, assim como a arte profunda dos presságios.
 
7.   Adopta o regime e o modo de vida que te manterão de boa saúde.
 
8.   Adopta as práticas de devoção que permitirão o teu desenvolvimento espiritual.
 
9.   Acompanha os discípulos cuja fé é forte, o espírito doce, e que pareçam favorecidos pelo karma na sua busca da sabedoria divina.
 
10.  Conserva sem cessar a tua consciência em vigília, quer seja a caminhar, estando sentado, comendo e a dormir.
 
Estas são as dez coisas a realizar.
 
 
IV
AS DEZ COISAS A EVITAR
 
1.   Evita o guia espiritual cujo coração aspira a ser conhecido e aos bens deste mundo.
 
2.   Evita os amigos e os discípulos que perturbam a paz do teu espírito e a tua progressão espiritual.
 
3.   Evita as residências e os eremitérios onde se encontram muitas pessoas que te importunem e te distraiam.
 
4.   Evita ganhar a tua vida pelo engano e pela fraude.
 
5.   Evita tais actos que lesem o teu espírito e entravem a tua progressão espiritual.
 
6.   Evita os actos frívolos e inconsiderados que te diminuem na estima do outro.
 
7.   Evita os comportamentos e os actos inúteis.
 
8.   Evita dissimular os teus próprios erros e discorrer sobre os dos outros.
 
9.   Evita os hábitos e os alimentos que não convêm à tua saúde.
 
10.  Evita as ligações que possam ser inspiradas pela cupidez.
 
Estas são as dez coisas a evitar.
 
 
V
AS DEZ COISAS A NÃO EVITAR
 
1.   As ideias, que são o irradiar do espírito, não devem ser evitadas.
 
2.   As formas conceptuais, que são a celebração da Realidade, não devem ser evitadas.
 
3.   As paixões obscurecedoras, que permitem lembrar-se da divina sageza (que serve para se libertar delas), não devem ser evitadas (bem utilizadas, elas permitem gozar plenamente a vida e atingir assim a desilusão).
 
4.   A abundância, que é a água e o fermento do progresso espiritual, não deve ser evitada.
 
5.   A doença e as provas, que ensinam a piedade, não devem ser evitadas.
 
6.   Os inimigos e o infortúnio, que podem incitar à vida religiosa, não devem ser evitados.
 
7.   O que vem de si mesmo, sendo um dom divino, não deve ser evitado.
 
8.   A razão, que é o nosso melhor aliado em cada uma das nossas acções, não deve ser evitada.
 
9.   Aqueles exercícios de devoção , físicos e espirituais, se se tiver os meios para os realizar, não devem ser evitados.
 
10.  Não evites o pensamento de ajudar os outros, por mais limitado que possa ser.
 
Estas são as dez coisas a não evitar.
 
 
VI
AS DEZ COISAS A SABER
 
1.   É preciso saber que todos os fenômenos visíveis, sendo ilusórios, são irreais.
 
2.   É preciso saber que o espírito, sendo desprovido de existência independente (separado do espírito universal), é efêmero.
 
3.   É preciso saber que qualquer ideia resulta de um encadeado de causas.
 
4.   É preciso saber que o corpo e a palavra, compostos dos quatro elementos, são transitórios.
 
5.   É preciso saber que os efeitos das acções passadas, das quais procede todo o sofrimento, são inevitáveis.
 
6.   É preciso saber que o sofrimento é um guru, pois que pode convencer cada um da necessidade de uma vida religiosa.
 
7.   É preciso saber que a afeição às coisas deste mundo torna a prosperidade material hostil ao desenvolvimento espiritual.
 
8.   É preciso saber que o infortúnio é igualmente um guru, pois que é um caminho que conduz à doutrina.
 
9.   É preciso saber que nenhuma coisa existente tem existência independente.
 
10.  É preciso saber que todas as coisas são interdependentes.
 
Estas são as dez coisas a saber.
 

VII
AS DEZ COISAS A PRATICAR
 
1.   Deve-se adquirir um conhecimento prático da via seguindo-a, e não comportar-se como a multidão que professa a religião mas não a pratica.
 
2.   Deve-se adquirir um conhecimento prático do desprendimento deixando a sua própria pátria e ficando em terra alheia.
 
3.   Depois de ter escolhido um instrutor religioso, abandona a tua vontade própria e segue cegamente os seus ensinamentos.
 
4.   Depois de ter adquirido a disciplina mental pela escuta e pela meditação dos ensinamentos religiosos, não te vanglories desta conquista mas emprega-a para a realização da verdade.
 
5.   Depois que as premissas do conhecimento espiritual se tenham levantado em ti, não o deixes preguiçosamente em pousio mas cultiva-o com uma vigilância de todos os momentos.
 
6.   Depois de ter experimentado a iluminação espiritual, comunica com ela em solidão, e abandona as actividades vulgares deste mundo.
 
7.   Depois de ter adquirido um conhecimento prático das coisas espirituais e conseguido a grande renúncia, não permitas ao teu corpo, à tua palavra ou ao teu espírito que deixem de seguir as regras, mas cumpre os três votos de pobreza, de castidade e de obediência.
 
8.   Se estás decidido a atingir o fim supremo, abandona o teu egoísmo e dedica-te ao serviço do outro.
 
9.   Se estás empenhado na via mística do Mantrayana, não deixes que o teu corpo, a tua palavra ou o teu espírito permaneçam impuros, mas pratica o mandala triplo (do corpo, da palavra e do espírito).
 
10.  Durante o tempo da tua juventude, não freqüentes aqueles que não te possam guiar espiritualmente, mas adquire laboriosamente o conhecimento prático aos pés de um guru instruído e piedoso.
 
Estas são as dez coisas a praticar.
 
 
VIII
AS DEZ COISAS NAS QUAIS É PRECISO PERSEVERAR
 
1.   Os noviços devem perseverar na escuta e na meditação dos ensinamentos religiosos.
 
2.   Se beneficias já de uma experiência espiritual, persevera na meditação e na concentração mental.
 
3.   Persevera na solidão até que o teu espírito tenha sido inteiramente disciplinado pelo yoga.
 
4.   Qualquer que possa ser a tua dificuldade em controlar a corrente dos teus pensamentos, persevera nos esforços para a dominar.
 
5.   Qualquer que seja a intensidade do teu adormecimento de espírito, persevera nos teus esforços para reforçar o teu intelecto ( ou para controlar o teu espírito).
 
6.   Persevera na tua meditação até que alcances a inalterável tranquilidade mental do samadhi (meditação profunda).
 
7.   Uma vez atingido este estado de samadhi, persevera de maneira a prolongar a sua duração e a poder provocar o seu aparecimento voluntário.
 
8.   Quaisquer que sejam os infortúnios de toda a espécie que te assaltem, persevera na paciência do corpo, da palavra e do espírito.
 
9.   Qualquer que possa ser a intensidade de uma afeição, de um desejo ou de uma fraqueza mental, persevera no teu esforço para eliminá-los mal apareçam.
 
10.  Por mais medíocres que sejam em ti a indulgência e a piedade, persevera a dirigir o teu espírito para a perfeição.
 
Estas são as dez coisas nas quais é preciso perseverar.
 
 
IX
AS DEZ INCITAÇÕES

1.   Ao reflectir sobre a dificuldade em obter um corpo humano livre e talentoso, possas tu ser incitado a adoptar a vida religiosa.
 
2.   Ao reflectir sobre a morte e sobre o carácter efêmero da vida, possas tu ser incitado a viver piamente.
 
3.   Ao reflectir sobre as conseqüências inevitáveis e irrevocáveis de toda a acção, possas tu ser incitado a evitar o mal e a falta de piedade.
 
4.   Ao reflectir sobre os males da vida no ciclo das existências sucessivas, possas tu ser incitado a procurar a emancipação.
 
5.   Ao reflectir sobre as misérias que sofrem todos os seres sensíveis, possas tu ser incitado a atingir a libertação pela iluminação do espírito.
 
6.   Ao reflectir sobre a perversidade e sobre a natureza ilusória do espírito de todos os seres sensíveis, possas tu ser inciado a escutar e a meditar sobre a doutrina.
 
7.   Ao reflectir sobre a dificuldade em erradicar os conceitos errôneos, possas tu ser incitado a uma meditação constante que triunfe.
 
8.   Ao reflectir sobre a preponderância das más inclinações nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a procurar o seu antídoto na doutrina.
 
9.   Ao reflectir sobre a multiplicidade dos infortúnios nesta idade das trevas, possas tu ser incitado a perseverar na tua busca de emancipação.
 
10.  Ao reflectir sobre a inutilidade de delapidar futilmente a tua vida, possas tu ser incitado à diligência no teu percurso sobre a via.
 
Estas são as dez incitações.
 
 
X
OS DEZ ERROS
 
1.   Uma fé fraca e um  intelecto forte podem conduzir ao erro da tagarelice.
 
2.   Uma fé forte e um intelecto fraco podem conduzir ao erro do dogmatismo tacanho.
 
3.   Um grande zelo sem instrução religiosa conveniente pode conduzir ao erro de extremos errados ou de seguir vias enganadoras.
 
4.   Meditar sem se ter preparado suficientemente pela escuta e pelo estudo da doutrina pode conduzir ao erro de se perder nas trevas do inconsciente.
 
5.   Sem uma compreensão prática e conveniente da doutrina, pode cair-se no erro da arrogância religiosa.
 
6.   A menos que se treine o espírito para o altruísmo e para a compaixão infinita, pode cair-se no erro de não procurar a libertação senão para si mesmo.
 
7.   A menos que se discipline o espírito pelo conhecimento da sua própria natureza imaterial, pode cair-se no erro de orientar todas actividades seguindo as vias do mundo.
 
8.   A menos que se erradique em si toda a ambição terrena, pode cair-se no erro de se deixar conduzir por motivações materialistas.
 
9.   Ao permitir que vulgares admiradores crédulos se juntem à nossa volta, pode cair-se no erro de se tornar inchado de orgulho mundano.
 
10.  Ao vangloriar-se dos seus conhecimentos e dos seus poderes ocultos, pode cair-se no erro de exibi-los orgulhosamente em cerimónias profanas.
 
Estes são os dez erros.
 
 
XI
AS DEZ SEMELHANÇAS ENGANADORAS
 
1.   O desejo pode ser tomado erroneamente por fé.
 
2.   A afeição pode ser tomada erroneamente pela indulgência e pela compaixão.
 
3.   A cessação da torrente dos pensamentos pode ser tomada erroneamente pela quietude do espírito infinito, que é o verdadeira finalidade.
 
4.   As percepções dos sentidos podem ser tomadas erroneamente pela realização completa.
 
5.   Uma simples visão da realidade pode ser tomada erroneamente pela completa realização.
 
6.   Os que professam exteriormente a religião, mas não a põem em prática, podem ser tomados erroneamente por verdadeiros devotos.
 
7.   Os escravos das suas paixões podem ser tomados erroneamente por mestres do yoga que se libertaram por si mesmos de todas as leis convencionais.
 
8.   Acções praticadas com um interesse pessoal podem ser tomadas erroneamente por acções altruístas.
 
9.   Métodos enganadores podem ser tomados erroneamente por métodos prudentes.
 
10.  Charlatões podem ser tomados erroneamanete por sábios.
 
Estas são as dez semelhanças enganadoras.
 
 
XII
AS DEZ COISAS QUE NÃO ENGANAM
 
1.   Ao libertar-se de toda a ligação e ao ser ordenado bhikshu (monge pedinte) da santa Ordem, depois de ter abandonado a sua residência e adoptado o estado de sem-lar, não há engano.
 
2.   Ao reverenciar o seu mestre espiritual, não há engano.
 
3.   Ao estudar conscienciosamente a doutrina, ao escutar os comentários que ela suscita, ao reflectir sobre eles e ao meditar sobre ela, não há engano.
 
4.   Ao alimentar altas aspirações e ao esforçar-se por uma conduta modesta, não há engano.
 
5.   Ao manter a mente aberta sobre a religião, ao mesmo tempo que se observa escrupulosamente os seus votos monásticos, não há engano.
 
6.   Ao aliar grande inteligência com pequeno orgulho, não há engano.
 
7.   Ao ser rico em conhecimentos religiosos e diligente em meditar sobre eles, não há engano.
 
8.   Ao aliar instrução religiosa de ponta, conhecimento das coisas espirituais e ausência de orgulho, não há engano.
 
9.   Ao passar toda a sua vida em solidão e em meditação, não há engano.
 
10.  Ao dedicar-se, sem consideração por si mesmo, a fazer o bem aos outros, por meio de métodos sábios, não há engano.
 
Estas são as dez coisas que não enganam.
 
 
XIII
OS TREZE MALOGROS MAIS CRUÉIS
 
1.   Se, tendo nascido humano, não se presta nenhuma atenção à santa doutrina, é-se semelhante a um homem que volta de mãos a abanar de uma terra rica de pedras preciosas; e isto é um malogro cruel.
 
2.   Se, depois de ter ultrapassado a entrada da santa Ordem, se volta para uma vida de família, é-se semelhante a uma borboleta nocturna que mergulha na chama de um candeeiro; e isto é um malogro cruel.
 
3.   Viver junto de um sábio e ficar na ignorância, é ser-se semelhante a um homem que morre de sede nas margens de um lago; e isto é um malogro cruel.
 
4.   Conhecer os preceitos morais e não os empregar para curar as  paixões que obscurecem, é ser-se semelhante a um homem doente transportando um saco de remédios que nunca utiliza; e isto é um malogro cruel.
 
5.   Pregar a religião e não a praticar, é ser-se semelhante a um papagaio que recita uma oração; e isto é um malogro cruel.
 
6.   Dar como esmolas e como caridade coisas que se tenham obtido por roubo, por pilhagem ou por fraude, é ser-se semelhante ao relâmpago que cai na água; e isto é um malogro cruel.
 
7.   Oferecer às divindades carne que provenha de seres animados que matamos, é como oferecer a uma mãe a carne da sua própria criança; e isto é um malogro cruel.
 
8.   Exercitar a paciência unicamente com fins egoístas e não para fazer o bem aos outros, é ser-se semelhante a um gato que exercita a sua paciência para matar um rato; e isto é um malogro cruel.
 
9.   Executar acções meritórias com o único fim de obter nomeada e louvores neste mundo, é como trocar a pedra mística maravilhosa por uma bola de caganitas de bode; e isto é um malogro cruel.
 
10.  Se depois de muito ouvir a doutrina, a nossa própria natureza ainda está desafinada, é-se semelhante a um médico atacado por uma doença crónica; e isto é um malogro cruel.
 
11.  Possuir a inteligência dos preceitos, permanecendo ignorante das experiências espirituais que decorrem da sua aplicação, é-se ser semelhante a um homem rico que tivesse perdido a chave do seu tesouro; e isto é um malogro cruel.
 
12.  Tentar explicar a outros doutrinas que não se dominam senão de maneira imperfeita, é ser-se semelhante a um cego que conduz outros cegos; e isto é um malogro cruel.
 
13.  Considerar as experiências resultantes da primeira etapa da meditação como as da última etapa, é ser-se semelhante a um homem que toma o cobre por ouro; e isto é um malogro cruel.
 
Estes são os treze malogros mais cruéis.
 
 
XIV
AS QUINZE FRAQUEZAS
 
1.   Um devoto religioso mostra fraqueza se permite que o seu espírito seja perturbado por pensamentos terrenos quando permanece em solidão.
 
2.   Um devoto religioso que dirige um mosteiro mostra fraqueza se procura o seu interesse pessoal em vez do da confraria.
 
3.   Um devoto religioso mostra fraqueza se respeita escrupulosamente a disciplina moral mas não tem controlo moral efectivo.
 
4.   Dá provas de fraqueza aquele que, tendo adoptado a via justa, permanece ligado a sentimentos terrenos de atracção e repulsa.
 
5.   Dá provas de fraqueza aquele que, tendo renunciado a este mundo e aderido à santa Ordem, aspira aí alcançar mérito.
 
6.   Dá provas de fraqueza aquele que, tendo apercebido brevemente a realidade, não consegue perseverar no sadhana (ou meditação yóguica) até ao dealbar da completa iluminação.
 
7.   Dá provas de fraqueza o devoto religioso que entra na via e que não consegue progredir nela.
 
8.   Dá provas de fraqueza aquele que, não tendo outra ocupação senão a devoção religiosa, não consegue libertar-se de comportamentos indignos.
 
9.   Dá provas de fraqueza aquele que, tendo escolhido a vida religiosa, hesita em fechar-se num isolamento rigoroso qundo sabe perfeitamente que o alimento e todas as coisas necessárias lhe serão fornecidas sem que as peça.
 
10.  Um devoto religioso que exibe poderes ocultos praticando exorcismos ou afastando as doenças mostra fraqueza.
 
11.  Um devoto religioso mostra fraqueza se troca virtudes sagradas por alimentos ou dinheiro.
 
12.  Aquele que consagrou a sua vida à religião mostra fraqueza se faz habilmente o elogio de si mesmo denegrindo os outros.
 
13.  Um homem de religião que dá mostras de elevação nas suas prédicas mas não na sua vida, mostra fraqueza.
 
14.  Aquele que professa a religião mas que não pode viver em solidão, na companhia de si mesmo, e que, ainda por cima, não consegue tornar a sua companhia agradável aos outros, mostra fraqueza.
 
15.  O devoto religioso mostra fraqueza se não é indiferente ao conforto assim como às privações.

Estas são as quinze fraquezas.
 
 
XV
AS DOZE COISAS INDISPENSÁVEIS
 
1.   É indispensável possuir um intelecto capaz de compreender e de aplicar a doutrina às suas próprias necessidades.
 
2.   Desde o início de uma vida religiosa, é absolutamente indispensável ter a mais profunda aversão pela interminável sucessão de nascimentos e mortes repetidas.
 
3.   Um guia espiritual capaz de te conduzir na via da emancipação é igualmente indispensável.
 
4.   O zelo, a coragem e a invulnerabilidade à tentação são indispensáveis.
 
5.   Uma perseverança sem descanso na neutralização das más acções, realizando boas, e a observância do triplo voto de preservar a castidade do seu corpo, a pureza do seu espírito e o controlo da sua palavra, são indispensáveis.
 
6.   Uma filosofia suficientemente vasta para abarcar o conhecimento na sua totalidade é indispensável.
 
7.   Um método de meditação tal que torne possível concentrar o espírito sobre qualquer que seja o objecto é indispensável.
 
8.   Uma arte de viver que permita utilizar cada actividade do corpo, da palavra e do espírito, como um suporte para a via é indispensável.
 
9.   Um método prático que dê ensinamentos escolhidos em vez de simples palavras é indispensável.
 
10.  Instruções particulares de um guru avisado, que permitam evitar as vias falaciosas, as tentações, as armadilhas e os perigos são indispensáveis.
 
11.  Uma fé indomável, aliada a uma suprema serenidade de espírito é indispensável no momento da morte.
 
12.  Como resultado de por em prática os ensinamentos escolhidos, a aquisição de poderes espirituais capazes de transmutar o corpo, a palavra e o espírito nas suas essências divinas é indispensável.
 
Estas são as doze coisas indispensáveis.
 
 
XVI
AS DEZ MARCAS
DE UM HOMEM SUPERIOR
 
1.   Não ter senão pouco orgulho e inveja é a marca de um homem superior.
 
2.   Não ter senão poucos desejos e satisfazer-se com coisas simples é a marca de um homem superior.
 
3.   Ser desprovido de hipocrisia e de falsidade é a marca de um homem superior.
 
4.   Regular a sua conduta de acordo com a lei da causa e efeito, tão cuidadosamente como se protege a menina dos seus olhos, é a marca de um homem superior.
 
5.   Ser fiel aos seus compromissos e às suas obrigações é a marca de um homem superior.
 
6.   Ser capaz de conservar vivas amizades não deixando de olhar todos os seres com imparcialidade é a marca de um homem superior.
 
7.   Ver com piedade e sem cólera aqueles que vivem no mal é a marca de um homem superior.
 
8.   Permitir aos outros a vitória e tomar para si a derrota é a marca de um homem superior.
 
9.   Diferenciar-se da multidão por cada um dos seus pensamentos e das suas acções é a marca de um homem superior.
 
10.  Cumprir fielmente e sem orgulho os seus votos de castidade e de piedade é a marca de um homem superior.
 
Estas são as dez marcas de um homem superior. Os seus opostos constituem as dez marcas de um homem inferior.
 
 
XVII
AS DEZ COISAS INÚTEIS
 
1.   O nosso corpo, sendo ilusório e transitório, é inútil prestar-lhe uma atenção excessiva.
 
2.   Ao observar que quando morremos devemos partir de mãos a abanar, e que no dia a seguir à nossa morte o nosso corpo é expulso da nossa própria casa, é inútil sofrer e suportar privações tendo em vista a construção de uma residência neste mundo.
 
3.   Ao observar que quando morremos, os nossos descendentes, se não tiverem sido esclarecidos espiritualmente, são incapazes de nos fornecer a mínima assistência, é inútil para nós legar-lhes riquezas temporais, mesmo por amor.
 
4.   Ao observar que quando morremos devemos seguir o nosso caminho sozinhos, sem parentes nem amigos, é inútil consagrar tempo (que devia ser consagrado a alcançar a iluminação) a cuidá-los e a satisfazê-los, ou a multiplicar em seu favor sinais de um afecto transbordante.
 
5.   Ao observar que os nossos próprios descendentes estão submetidos à morte, e que os bens materiais que possamos legar-lhes serão de qualquer maneira, mais dia menos dia, perdidos, é inútil legar-lhes bens deste mundo.
 
6.   Ao observar que quando vem a morte deve abandonar-se até a sua própria residência, é inútil consagrar a sua vida à aquisição das coisas deste mundo.
 
7.   Ao observar que a infidelidade aos votos religiosos tem como efeito conduzir a estados de existência miseráveis, é inútil entrar para a Ordem sem aí viver santamente.
 
8.   Ter escutado e meditado a doutrina sem a ter praticado nem ter adquirido poderes espirituais que nos assistam no momento da morte é inútil.
 
9.   É inútil ter vivido, mesmo durante muito tempo, ao lado de um instrutor espiritual se nos falta humildade ou devoção, sendo-se, consequentemente, incapaz de qualquer desenvolvimento espiritual.
 
10.  Ao observar que todos os fenômenos existentes e aparentes são sempre transitórios, mutantes e instáveis, e mais particularmente que a vida neste mundo não pode dar nem realidade nem ganho permanente, é inútil consagrar-se aos vãos empreendimentos deste mundo em vez de procurar a sabedoria divina.
 
Estas são as dez coisas inúteis.
 
 
XVIII
AS DEZ CONTRARIEDADES QUE SE CRIAM A SI MESMO
 
1.   Fundar uma família sem meios de subsistência é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como o faria um idiota ao comer acônito.
 
2.   Viver uma vida francamente má e desviar-se da doutrina é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um demente ao saltar de um precipício.
 
3.   Viver na hipocrisia é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma pessoa ao envenenar a sua própria comida.
 
4.   Não ter firmeza de espírito e tentar mesmo assim agir como um chefe de mosteiro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma velha e fraca mulher ao tentar juntar um rebanho.
 
5.   Consagrar-se inteiramente às suas ambições pessoais e não se esforçar pelo bem de outro é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um cego ao aventurar-se no deserto.
 
6.   Lançar-se a tarefas difíceis sem para elas ter capacidade é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um homem sem força ao tentar transportar uma pesada carga.
 
7.   Transgredir as mandamentos de Buda, ou do guia espiritual, por orgulho e por presunção, é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um rei ao seguir uma política corrupta.
 
8.   Perder o seu tempo a passear por cidades e aldeias em vez de se consagrar à meditação é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria um esquilo que descesse para o vale em vez de ficar ao abrigo da montanha.
 
9.   Perder-se na procura das coisas do mundo, em vez do desenvolvimento da divina sabedoria é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma águia ao partir uma asa.
 
10.  Rejeitar com insolência ofertas dedicadas ao guia espiritual ou à trindade (Buda, textos sagrados, monges) é uma contrariedade que se cria a si mesmo, como faria uma criança ao engolir carvões ardentes.
 
Estas são as dez contrariedades que se criam a si mesmo.
 
 
XIX
AS DEZ COISAS PELAS QUAIS SE PRATICA O BEM
 
1.   Pratica-se o bem ao abandonar os costumes do mundo e ao consagrar-se à santa doutrina.
 
2.   Pratica-se o bem ao deixar a sua residência e os seus pais e ao ligar-se a um guia espiritual realmente santo.
 
3.   Pratica-se o bem ao renunciar às actividades do mundo e ao consagrar-se às três actividades religiosas – a escuta, a reflexão e a meditação sobre os ensinamentos escolhidos.
 
4.   Pratica-se o bem ao abandonar as suas relações sociais e ao permanecer na solidão.
 
5.   Pratica-se o bem ao renunciar ao desejo de luxo e de bem-estar, e ao suportar privações.
 
6.   Pratica-se o bem ao contentar-se com coisas simples e ao libertar-se da necessidade de posses materiais.
 
7.   Pratica-se o bem ao tomar a resolução – e ao mantê-la firmemente – de não se aproveitar dos outros.
 
8.   Pratica-se o bem ao não desejar mais os prazeres efêmeros desta vida e ao esforçar-se por realizar a felicidade permanente do Nirvana.
 
9.   Pratica-se o bem ao renunciar ao amor pelas coisas materiais e visíveis, que são irreais e efêmeras, e ao atingor o conhecimento da realidade.
 
10.  Pratica-se o bem ao evitar que as três portas do conhecimento, o corpo, a palavra e a mente, não permaneçam espiritualmente indisciplinados, e ao adquirir, por meio do seu uso justo, o duplo mérito (causal e espiritual).
 
Estas são as dez coisas pelas quais se pratica o bem.
 
 
XX
AS DEZ MELHORES COISAS
 
1.   Para um intelecto fraco, a melhor coisa é fiar-se na lei das causas e dos efeitos.
 
2.   Para um intelecto sofrível, a melhor coisa é reconhecer ao mesmo tempo em si e fora de si mesmo, o dinamismo da lei dos opostos.
 
3.   Para um intelecto superior, a melhor coisa é compreender plenamente que o sujeito do conhecimento, o objecto do conhecimento e o acto de conhecer são indissociáveis.
 
4.   Para um intelecto fraco, a melhor meditação consiste numa concentração total do mental sobre um objecto único.
 
5.   Para um intelecto sofrível, a melhor meditação consiste numa concentração ininterrupta do mental sobre os dois conceitos dualistas (a aparência e a realidade de um lado, a consciência e o espírito do outro).
 
6.   Para um intelecto superior, a melhor meditação consiste numa quietude mental, o espírito livre de qualquer processo de pensamento, sabendo que o que medita, o objecto da meditação e o acto de meditar constituem uma unidade indissociável.
 
7.   Para um intelecto fraco, a melhor prática religiosa é viver em estrita conformidade com a lei das causas e dos efeitos.
 
8.   Para um intelecto sofrível, a melhor prática religiosa é olhar todas as coisas objectivas como se fossem imagens de um sonho ou de uma produção mágica.
 
9.   Para um intelecto superior, a melhor prática religiosa é abster-se de qualquer desejo e de qualquer empreendimento deste mundo, ao considerar qualquer coisa terrena como inexistente.
 
10.  Para os três níveis do intelecto, o melhor indicativo do progesso espiritual é a diminuição progressiva das paixões que obscurecem e do egoísmo.
 
Estas são as dez melhores coisas.
 
 
XXI
OS DEZ  ERROS GRAVES
 
 
1.   Para um devoto religioso, seguir um charlatão hipócrita em vez de um guia espiritual que pratica sinceramente a doutrina, é um grave erro.
 
2.   Para um devoto religioso, dedicar-se às vãs ciências deste mundo em vez de procurar os nobres ensinamentos secretos dos grandes sábios, é um grave erro.
 
3.   Para um devoto religioso, fazer planos a longo prazo como se fosse estabelecer uma residência permanente neste mundo, em vez de viver cada dia como o último da sua existência, é um grave erro.
 
4.   Para um devoto religioso, pregar a doutrina à multidão antes de ter verificado a sua veracidade, em vez de a meditar e de avaliar a sua correcção, é um grave erro.
 
5.   Para um devoto religioso, comportar-se como um avaro e juntar riquezas em vez de as consagrar à religião e à caridade, é um grave erro.
 
6.   Para um devoto religioso, entregar à falta de vergonha da devassidão o seu corpo, a sua palavra ou o seu espírito em vez de observar escrupulosamente os seus votos, é um grave erro.
 
7.   Para um devoto religioso, malbaratar a sua vida entre as esperanças e os receios deste mundo, em vez de adquirir a compreensão da realidade, é um grave erro.
 
8.   Para um devoto religioso, tentar corrigir outrem em vez de a si mesmo, é um grave erro.
 
9.   Para um devoto religioso, esforçar-se por obter poderes temporais em vez de cultivar os seus próprios poderes espirituais, é um grave erro.
 
10.  Para um devoto religioso, permanecer ocioso e indiferente em vez de perseverar quando se apresentam todas as circunstâncias propícias ao desenvolvimento espiritual, é um grave erro.
 
Estes são os dez erros graves.
 
 
XXII
AS DEZ COISAS NECESSÁRIAS
 
1.   No início da vida religiosa, é necessário sentir uma aversão tão profunda pela sucessão ininterrupta das mortes e dos nascimentos à qual estão submetidos todos os que não atingiram a iluminação, que se deve desejar fugir dela como um cervo foge à captividade.
 
2.   A segunda coisa necessária é uma perseverança tal que não se arrependa perder a vida na busca da iluminação, do mesmo modo que um agricultor que trabalha os seus campos não se arrepende da sua lavra, mesmo que morra no dia a seguir.
 
3.   A terceira coisa necessária é uma alegria parecida à do homem que alcançou um feito de longo alcance.
 
4.   Uma vez mais, é preciso compreender que, como para um homem gravemente ferido por uma seta, não há um instante a perder.
 
5.   Deve ser-se capaz de fixar o seu espírito num único pensamento, como o faz uma mãe que perdeu o seu filho único.
 
6.   É preciso compreender também que qualquer acção é inútil, do mesmo modo que o boieiro cujo gado foi levado para longe por inimigos, compreende que não pode fazer nada para recuperá-lo.
 
7.   É fundamentalmente exigido desejar a doutrina como um homem esfaimado deseja uma boa comida.
 
8.   É preciso ser-se também confiante na sua capacidade mental como um homem vigoroso na sua capacidade física para conservar uma pedra preciosa que encontrou.
 
9.   Deve desmascarar-se o erro do dualismo como se faria com a falsidade de um mentiroso.
 
10.  Deve ter-se confiança n’ O Que É como sendo o único refúgio, do mesmo modo que um corvo quase sem forças e longe de qualquer terra tem confiança no mastro do navio sobre o qual se repousa.
 
Estas são as dez coisas necessárias.
 
 
XXIII
AS DEZ COISAS SUPÉRFLUAS
 
1.   Depois de ter percebido que o espírito é vazio por natureza, não é mais necessário escutar ou meditar sobre os ensinamentos religiosos.
 
2.   Depois de ter percebido que o espírito é incorruptível por natureza, não é mais necessário procurar a absolvição dos seus pecados.
 
3.   Do mesmo modo, não é mais necessário a absolvição para quem permanece no estado de quietude mental.
 
4.   Para quem atingiu o estado de pureza absoluta, não é mais necessário meditar sobre a via ou sobre os meios de nela avançar, pois atingiu o seu fim.
 
5.   Depois de ter percebido que os conhecimentos são ilusórios e irreais por natureza, não é mais necessário meditar sobre o estado de não-conhecimento.
 
6.   Depois de ter percebido que as paixões que obscurecem são ilusórias e irreais por natureza, não é mais necessário procurar o seu antídoto.
 
7.   Depois de ter percebido que todos os fenômenos são ilusórios, é supérfluo procurar ou rejeitar o que quer que seja.
 
8.   Depois de ter reconhecido que a aflição e o infortúnio são bênçãos, é supérfluo procurar a felicidade.
 
9.   Depois de ter reconhecido que a sua própria consciência é inata por natureza, não é mais necessário praticar a transferência de consciência.
 
10.  Se só o bem do outro é procurado em tudo o que se faz, não é mais necessário procurar nisso algum benefício para si mesmo.
 
Estas são as dez coisas supérfluas.
 
 
XXIV
AS DEZ COISAS
MAIS PRECIOSAS
 
1.   Uma vida humana livre e dotada de numerosos talentos é mais preciosa do que miríades de vidas não-humanas em qualquer um dos seis estádios da existência.
 
2.   Um sábio é mais precioso do que uma multidão de pessoas não-religiosas e preocupadas com os assuntos deste mundo.
 
3.   Uma verdade esotérica é mais preciosa do que inúmeras doutrinas exotéricas.
 
4.   Uma percepção momentânea da sabedoria divina, nascida da meditação, é mais preciosa do que não importa qualquer montão de conhecimentos obtidos pela escuta e pelo estudo dos ensinamentos religiosos.
 
5.   O mais pequeno mérito dedicado ao bem do outro é mais precioso do que não importa qual mérito consagrado ao seu próprio bem.
 
6.   Experimentar ainda que seja por um instante o samadi no qual todos os processos de pensamento estão suspensos é mais precioso do que experimentar sem cessar o samadhi no qual os processos de pensamento ainda estão activos.
 
7.   Gozar um só momento o prazer do Nirvana é mais precioso do que gozar não importa qual acumulação de prazeres sensuais.
 
8.   A mais pequena boa acção desinteressada é mais preciosa do que inúmeras boas acções interesseiras.
 
9.   Renunciar a todas as coisas deste mundo, residência, família, amigos, propriedade, nomeada, longa vida, e mesmo saúde, é mais precioso do que dar incomensuráveis riquezas deste mundo para a caridade.
 
10.  Uma única via consagrada à busca da iluminação é mais preciosa do que todas as vidas de uma eternidade consagrada a empreendimentos deste mundo.
 
Estas são as dez coisas mais preciosas.


XXV
AS DEZ COISAS EQUIVALENTES
 
1.   Para quem se dedicou sinceramente à vida religiosa, tanto faz abster-se de qualquer actividade do mundo como não.
 
2.   Para quem percebeu a natureza transcendente do espírito, tanto faz praticar a meditação como não.
 
3.   Para quem está livre qualquer ligação às voluptuosidades do mundo, tanto faz praticar o ascetismo como não.
 
4.   Para quem percebeu a realidade, tanto faz permanecer solitariamente numa montanha isolada ou vagabundear por aqui e por ali como um monge pedinte.
 
5.   Para quem atingiu o domínio do seu espírito, tanto faz tomar parte nos prazeres deste mundo como não.
 
6.   Para quem é dotado de uma compaixão universal, tanto faz praticar a meditação solitária como trabalhar pelo bem do outro na sociedade.
 
7.   Para aquele cuja humildade e fé, aliadas ao respeito pelo seu guru, são inabaláveis, tanto faz permanecer com o seu guru como não.
 
8.   Para quem percebe precisamente os ensinamentos que recebeu, tanto faz encontrar a boa como a má sorte.
 
9.   Para quem renunciou à vida do mundo e se ligou firmemente à prática das verdades espirituais, tanto faz respeitar os códigos de conduta convencionais como não.
 
10.  Para quem atingiu a sublime sabedoria, tanto faz exercer como não os poderes milagrosos.
 
Estas são as dez coisas equivalentes.
 
 
XXVI
AS DEZ VIRTUDES
DA SANTA DOUTRINA
 
1.   O facto de que tenham sido trazidos ao conhecimento dos homens os dez actos piedosos, as seis virtudes ilimitadas, os diversos ensinamentos respeitantes à realidade e à perfeição, as quatro nobres verdades, os quatro estádios de meditação profunda, os quatro estados de existência informal e as duas vias místicas de desenvolvimento e de emancipação espirituais, atesta a virtude da santa doutrina.
 
2.   O facto de que no seio do mundo terreno se tenham desenvolvido, entre os homens, príncipes e Brâmanes espiritualmente esclarecidos, assim como os quatro grandes guardiões do horizonte, as seis ordens de divindades dos paraísos sensíveis, as dezassete ordens dos deuses dos mundos das formas e as quatro ordens dos deuses dos mundos informais, atesta a virtude da santa doutrina.
 
3.    O facto de que se tenham levantado neste mundo aqueles que entraram para a via, aqueles que só regressarão uma vez ao nascimento e aqueles que passaram para lá da necessidade de uma existência futura, os santos, os Budas iluminados e os Budas omniscientes, atesta a virtude da santa doutrina.
 
4.   O facto de que existam aqueles que atingiram a iluminação, o facto de que sejam capazes de regressar ao mundo sob a forma de encarnações divinas para trabalharem na libertação do género humano e de todos os vivos até à dissolução do universo físico, atesta a virtude da santa doutrina.
 
5.   O facto de que existam, emanando da universal bondade dos iluminados voluntariamente reincarnados, influências espirituais protectoras que permitem a libertação do homem e todos os seres vivos, atesta a virtude da santa doutrina.
 
6.   O facto de que, mesmo nos estados de existência miseráveis, se possa experimentar momentos de felicidade, pelo simples facto de se terem realizado actos de misericórdia neste mundo humano, atesta a virtude da santa doutrina.
 
7.   O facto de que homens, depois de terem vivido no mal, renunciaram à sua vida materialista e se tornaram santos dignos da veneração do mundo, atesta a virtude da santa doutrina.
 
8.   O facto de que homens cuja sucessão profundamente adversa dos actos os teria condenado a sofrimentos quase eternos depois da sua morte, se voltaram para a via religiosa e atingiram o Nirvana, atesta a virtude da santa doutrina.
 
9.   O facto de que, simplesmente tendo fé na doutrina, ou meditando sobre ela, ou mesmo somente vestindo o hábito do monge pedinte, se torne digno de respeito e de veneração, atesta a virtude da santa doutrina.
 
10.  O facto de que depois de ter abandonado a todos os bens e abraçado a carreira religiosa, depois de ter renunciado ao estado de chefe de família e se ter escondido no eremitério mais retirado, se possa ainda ser procurado e provido de todas as necessidades da vida, atesta a virtude da santa doutrina.
 
Estas são as dez virtudes da santa doutrina.
 
 
XXVII
AS DEZ
EXPRESSÕES METAFÓRICAS
 
1.   Dado não se poder descrever a “verdade fundamental”, que deve no entanto ser percebida na meditação yoguica, a expressão “verdade fundamental” não é senão uma metáfora.
 
2.   Dado não haver nem viagem, nem viajante na “via”, a expressão “via” religiosa não é senão uma metáfora.
 
3.   Dado não haver nenhum testemunho nem nenhuma testemunha do “estado de verdade”, a expressão “estado de verdade” não é senão uma metáfora.
 
4.   Dado não haver nem meditação nem meditante do “estado puro”, a expresão “estado puro” não é senão uma metáfora.
 
5.   Dado não haver nem fruição nem desfrutador do “humor natural”, a expressão “humor natural” não é senão uma metáfora.
 
6.   Dado não haver nem cumprimento dos votos nem guardiões dos votos, estas expressões não são senão metáforas.
 
7.   Dado não haver nem acumulação de méritos nem ninguém para os acumular, a expressão “duplo mérito” não é senão uma metáfora.
 
8.   Dado não haver nem acção nem actor, a expressão “dupla via” não é senão uma metáfora.
 
9.   Dado não haver nem renúncia nem renunciador da vida no mundo, a expressão “vida no mundo” não é senão uma metáfora.
 
10.  Dado não haver nem benefício nem beneficiário das consequências dos actos, a expressão “conseqüência dos actos” não é senão uma metáfora.
 
Estas são as dez expressões metafóricas.
 
 
XXVIII
AS DEZ
GRANDES COMPREENSÕES ALEGRES
 
1.   É uma grande alegria compreender que o espírito de todos os seres sensíveis é indissociável do espírito universal.
 
2.   É uma grande alegria compreender que a realidade fundamental não tem qualidades.
 
3.   É uma grande alegria compreender que no infinito conhecimento da realidade, para lá de todo o pensamento, todas as diferenciações do mundo terreno são inexistentes.
 
4.   É uma grande alegria compreender que no seu espírito original incriado, o espírito não é perturbado por nenhum processo de pensamento.
 
5.   É uma grande alegria compreender que no estado de verdade fundamental, onde o espírito e a matéria são inseparáveis, não existe nem construtor de teorias, nem construções teóricas.
 
6.   É uma grande alegria compreender que no puro corpo espiritual, emanado dele mesmo, não existem nem geração, nem morte, nem transição, nem nenhuma mudança.
 
7.   É uma grande alegria compreender que no divino corpo reencarnado, emanado dele mesmo, não existe nenhum sentimento de dualidade.
 
8.   É uma grande alegria compreender que na essência da lei suprema, a doutrina da alma pessoal se revela sem fundamento.
 
9.   É uma grande alegria compreender que na compaixão divina e ilimitada dos iluminados reencarnados, não existe nenhuma imperfeição, nem nenhuma manifestação de parcialidade.
 
10.  É uma grande alegria compreender que a via para a libertação, que todos os Budas percorreram, está lá sempre, sempre imutável, e sempre aberta aqueles que estão preparados para lá entrar.
 
Estas são as dez grandes compreensões alegres.
 
 
EPÍLOGO
 
O que precede contem a essência das palavras imaculadas dos grandes Gurus, que eram dotados da sabedoria divina; e da deusa Tara e de outras divindades. Entre estes grandes mestres figurava o glorioso Dipankara, o pai espiritual, assim como os seus sucessores, que foram divinamente mandatados para espalharem a doutrina nesta terra das neves do norte; e os graciosos Gurus da escola Kadampa. Havia também o rei dos yogin, Milarepa, a quem foram legados os ensinamentos do sábio Marpa de Lohbrak e dos outros; e os ilustres santos da nobre terra das Índias, Naropa e Maitripa, cujos esplendores igualam os da lua e do sol; e os discípulos de todos estes.
 
Aqui acaba A Via Suprema, o Rosário das Pedras Preciosas.
 
 
Este tratado foi transcrito por Digom Sönam Rinchen, que conhecia perfeitamente os ensinamentos de Kadampas e dos Chagchenpas.
É correntemente admitido que o grande guru Gampopa (conhecido igualmente sob o nome de Dvagpo-Lharje) redigiu esta obra, e transmitiu-a com a seguinte recomendação: “Eu peço às gerações de devotos futuros que honrarão a minha memória e lastimarão não terem podido encontrar-me pessoalmente que estudem isto, A Via Suprema, O Rosário das Pedras Preciosas, e ainda A Preciosa Jóia de Libertação, entre outros tratados religiosos. O resultado será idêntico aquele de um encontro pessoal comigo.”
Possa este livro irradiar a divina virtude, e possa ser propício.
Bendito seja ele.

 
< Artigo anterior