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DO HOMEM VISÍVEL AO INVISÍVEL PDF Imprimir e-mail
Há muitos milénios que o ser humano é visto por religiões, gnoses e sagezas como que constituído por duas naturezas diferentes mas complementares, associadas normalmente ao conceito de corpo e alma. A partir do momento que o indivíduo liberta pelo autoconhecimento e pela meditação novas formas de percepção, verifica que ele próprio possui essa dupla natureza – visível / invisível – que se desdobra num cosmos supra-sensível e multidimensional. Contudo, são muito poucos ainda aqueles que utilizam, de forma útil e como fonte de conhecimento, estes recursos na sua vida diária e consciente.                                                      

O voo de asa da percepção

No início do século XX as questões da consciência ampliada e da percepção alargada surgiram de novo com força. Dentro deste contexto é preciso ver, desde já, que a percepção do ser humano é sempre normal e nunca para-normal. Sendo um ser complexo, todos os níveis de percepção fazem parte da sua estrutura, não há percepção extra-sensorial. O ser humano tem faculdades que podem contemplar a multidimensionalidade do universo, apenas a cultura e educação o impedem de desenvolver estas faculdades latentes. As crianças, quando ainda não sujeitas ao condicionamento da percepção, muitas vezes olham para a realidade de outra maneira. Estes tipos de percepção são rejeitados pelos pais e pela sociedade, mas isto não quer dizer que o equipamento sensorial alargado e de grande alcance não exista em cada um de nós. A nossa biologia limita, à partida, a nossa percepção. Em vez de alcançar o olhar da águia, limitamo-nos ao da galinha, pois os condicionamentos culturais e sociais limitam o voo de asa da nossa percepção.

A questão é se existe, ao lado e para além da percepção estreita da realidade, outra mais alargada que abranja uma realidade paralela, invisível. Desde a antiguidade, todas as correntes filosóficas se debruçaram sobre esta questão, ficando muitas vezes prisioneiros de uma visão dualista. É preciso descobrir que o mundo não se divide em visível e invisível, que a realidade não pode ser dividida. Apenas por estarmos distraídos, a nossa percepção não abrange a totalidade da realidade.

                                     O medo do escuro

Os grandes sistemas religiosos dividem tudo, sendo adeptos de uma percepção dualista. Contudo, a divisão da realidade é o pecado contra o espírito – a realidade não é dual, é una e unificada. Mas no ser humano, o medo do invisível é atávico e culturalmente transmitido. Começa já em criança com o medo do escuro, ou seja, do desconhecido, do que não se conhece e do que não é controlável. Mas quem tem medo, não mata a curiosidade e não descobre o mundo, uma vez que se impõem à partida limitações. É imprescindível, na educação dos filhos, acompanhá-los na sua descoberta do mundo e de lhes tirar o medo face a coisas que não conhecem. Assim é mais fácil  perceber que a realidade é só uma, não se divide em visível e invisível. O ser humano apenas capta parte dela por se sentir mais seguro deste modo. Nas nossas experiências delimitamos o mundo para sentirmos mais estabilidade e segurança, uma vez que nos sentimos sempre ameaçados no “nosso território” pelo desconhecido e o invisível.

                                Experiência própria

A concepção deste desconhecido e invisível é diferente em todas as culturas e religiões – o ver e perceber e o consequente descrever não coincidem, uma vez que este último é tingido pela cultura e sociedade envolvente. Contudo, há só um invisível, mesmo que seja descrito de várias maneiras.

Tomemos, por exemplo, a vida depois da morte – o trajecto entre a vida e a morte é descrito de várias formas, e representado de várias maneiras nas várias religiões, seguindo estruturas de interpretação diferentes. As nossas ferramentas de percepção são sobretudo a audição e a visão, são estes sentidos, bastante desenvolvidos, que nos orientam na realidade. Contudo, somos educados para olhar e ouvir de determinada maneira, e não vemos ou escutamos verdadeiramente, porque andamos distraídos. No estado de atenção escutamos imensos sons que não ouvimos, se não apagamos os ruídos interiores. De mesmo, quando olhamos vemos as coisas apenas se estamos em estado de atenção. O mesmo é verdade para os outros sentidos. Todos funcionam, normalmente, de um modo centrípeto, da periferia para o centro, de fora para dentro, e servem deste modo apenas para a sobrevivência, de modo que as nossas sensações são hiper-autocentradas.

Só entrando no estado de atenção é possível criar espaço para que os sentidos possam funcionar de outro modo, para que as sensações se possam focar a grande distância e o campo de consciência se possa alargar à nossa volta. Podemos, então, ter sentidos divergentes, abertos ao espaço em utilização do campo alargado de percepção. Descobre-se então que temos vários campos de percepção à nossa volta que nos permitem perceber vários níveis de realidade. O equipamento psico-mental alarga os modos de percepção em relação ao equipamento neuro-sensorial que utilizamos normalmente.

                                 A meditação e o sonho

Existem três modalidades de sonhar. O sono desencadeia o processo de sonhar que, por sua vez, organiza a experiência do dia ou os ruídos da noite à volta, limitando-se a uma interpretação onírica circunscrita. Há outros sonhos provocados por percepção pscio-sensorial. Estes sonhos são transcerebrais e organizam a realidade, e a respectiva experiência, numa linguagem nova, mais clara, numa linguagem simbólica de compreensão e entendimento que permite uma interpretação a outro nível. No campo de consciência seguinte, na terceira esfera de consciência, o sonho torna-se lúcido, abrangendo níveis transcerebrais. Descobrimos então que somos nós a construir o sonho e que podemos igualmente desfazê-lo ou alterá-lo. Sendo construtores dos nossos próprios sonhos, temos a possibilidade de manipulá-los e mudá-los como bem o entender, criando o sonho à nossa medida e expectativa. Mas podemos também suprimi-lo para descobrir o que está por além dele, para ver o que fica. Fica algo que não depende de nós, uma realidade que não é manipulável por nós, nenhum pensamento, nenhuma emoção ou acção pode manipulá-la. O invisível começa aí. Tudo o resto manipulamos na vida e na morte, na qual apenas o suporte de consciência morre. Passando os três níveis de sonho e indo além, pode descobrir-se que não há invisível, mas sim a realidade tal qual ela é, sem imaginação e interpretação. É aí que se faz a experiência do absoluto, de Deus que está acessível no AQUI e AGORA.

A meditação proporciona a relação com o estado não-mental, com a não mente. Há várias práticas que levam a este estado, por exemplo, o chamado estado incolor, uma prática que permite, mesmo acordado, ver que o mundo tem uma realidade própria e não é como nos pensamos. Cada um pode, passando a este nível, atingir o inefável, o que está por além de toda a imaginação. Aí, deixando fluir as coisas, escutando, vendo, saboreando a realidade numa percepção sinestésica e distendida de todos os sentidos. Só esvaziando a mente é possível sairmos do autocentrismo, das preocupações com o passado e futuro, ficando no eterno AGORA. 

                           O espaço não contaminado

Este é o espaço do invisível não auto-produzido, ao passo que o visível é sempre auto-produzido, este é o espaço que cada um tem de descobrir e explorar por si. É apenas necessário criar as condições de silencie e vazio e instalar a curiosidade para que cada um possa usufruir esta realidade, o equipamento existe para além do psico-mental e psico-sensorial.

Cada um tem de resolver este problema, criando um espaço não contaminado, livre. Este espaço pode, depois, a partir da meditação, ser transferido para o sonho. É, contudo, necessário, perceber que alguma meditação continua a ocupar o espaço do cérebro e não deixa usufruir o espaço livre, a base da consciência pura onde todos os sentidos são alargados. Apenas uma prática intensa e regular pode levar-nos até este espaço. É preciso que cada um ultrapasse a preguiça mental e saia da teoria e das leituras. Ninguém pode fazer este trabalho por nós. Cada um tem de criar espaço psico-mental para que os sentidos dentro e fora de nós possam florescer e a relação com as coisas se altere.

Cada cultura e religião estabelecem um padrão de visibilidade para os seus cidadãos, um código preestabelecido. É a tarefa de cada um  libertar-se deste código, deixar para trás as expectativas e o passado. Não há milagres na percepção de cada um. Ao longo de cada dia esta experiência dos sentidos no AGORA pode levar ao espaço não contaminado e não manipulável, à realidade da consciência pura.

V.Q.
 
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