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CONTOS DE FADAS - ESPIRITUALIADE E TRANSFORMAÇÃO PESSOAL PDF Print E-mail
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Os contos de fadas – os fairy tales, contes de fées ou Märchen em outras línguas – são narrativas arquetípicas muito antigas e com origem em espiritualidades vivas. São histórias que descrevem, numa linguagem simbólica e cheia de sageza, o que importa no ser humano: uma nova vida interior, a transformação da percepção e uma relação espiritualizada com a sociedade e o universo. 

 

Nos anos 50 do século passado, no rescaldo da guerra e das desilusões que trouxe, notou-se um revivalismo dos contos de fadas. Publicaram-se muitos estudos sobre os contos, a sua origem e a sua função no desenvolvimento humano. A sua releitura sublinhou os componentes arquetípicos do campo de consciência de cada um. A humanidade desde os tempos mais remotos criou sempre mitos de origem que começam normalmente com a suspensão do tempo. Assim os contos de fadas iniciam-se invariavelmente com o “Era uma vez…” que suspende tanto o tempo psicológico como o tempo cronológico, levando a um não-tempo.

O escutar

O ser humano tem horror ao vazio, ao não-tempo que suspende os hábitos e rotinas psicológicas e a segurança que proporcionam. Quando se conta um conto de fada não se trata de ouvir mais uma história, mas escutar com disponibilidade e atenção. A atitude de escuta suspende o tempo e o pensamento associativo que enche normalmente a nossa cabeça. Cria-se deste modo espaço em termos de campo de consciência, instala-se uma receptividade, um silêncio que suspende qualquer actividade psico-mental. Quem escuta sai da limitação e do condicionamento do tempo psicológico e da impaciência do tempo cronológico. É como se entrássemos numa catedral, num espaço interior que é o nosso templo com uma acústica ideal para escutar.

A origem e estrutura dos contos de fadas

A sua origem é contemporânea da vida humana organizada, não se insere na evolução progressiva da teoria finalista do mundo e não pode ser determinada historicamente. Os contos de fadas fazem parte das ferramentas postas à disposição do ser humano para que o universo se possa pensar a si mesmo. São narrativas organizadas de percursos de demanda, onde o herói, ou a heroína, começam num ponto de partida,  passando por uma fase sombria e se confrontar com forças adversas para, finalmente, vencer estas forças e encontrar uma ordem final, que muitas vezes é expressa pelas palavras “…. E viveram felizes para sempre”.

O herói, ou a heroína, são protagonistas de uma demanda, de um itinerário iniciático. Numa primeira fase, reina uma ordem ingénua, uma inocência inata, depois surge o conflito, uma fase penosa, onde se perde esta inocência primordial, e segue-se um confronto com a causa da desordem, até á vitória sobre as forças adversas e obscuras do “mal”. Trata-se de uma estrutura biológica existente desde os primórdios da humanidade. É o mergulho do ser humano no seu inconsciente e a aprendizagem do controle dele. Originalmente, estas faculdades latentes tinham algo de mágico, eram do reino do milagre (telepatia, faculdades para-psicológicas etc.), e permitiam conhecer melhor o campo de consciência do ser humano.

As fases peri-natais e as matrizes dos contos de fadas

Stanislav Grof, o fundador da psicologia transpessoal, fez inúmeras experiências no âmbito da psicoterapia com indivíduos que oscilavam constantemente entre euforia  e depressão, acompanhadas por alucinações agudas. Houve vários elementos que se repetiam no que estes doentes lhe contaram das suas “viagens” oníricas. Por exemplo, o reflexo de se colocar na posição fetal quando, sob a influência do LSD, os seus sonhos lúcidos eram terríveis, acompanhados de grande sofrimento psicológico. A partir destas experiências, Grof conseguiu estabelecer a relação com os quatro matrizes peri-natais, matrizes que estruturam também os contos de fadas:


1. Sensações homeostáticas na placenta materna, como uma espécie de céu metafísico sem conflitualidade, estado paradisíaco.
2. Rotura da placenta, das águas, o líquido é derramado e as contracções começam. Fase traumatizante de grande insegurança.
3. Entrada no canal vaginal, percurso por um tracto muito estreito que exige uma luta para nascer.
4. Nascimento propriamente dito.
5. Parte dos nossos sonhos e pesadelos baseiam-se em fantasias pré-natais e as respectivas ansiedades.


Os contos de fadas seguem os mesmos padrões, as quatro fases da demanda são as quatro fases do nascimento:

1. Fase da inocência
2. Emergência de um factor de ameaça
3. Confronto com a própria sombra
4. Vitória sobre os conflitos

As crianças gostam dos contos de fadas porque estão ainda muito próximas do nascimento, da aventura iniciática das matrizes peri-natais. Originalmente, os contos de fadas até eram para adultos, transmitidos por contadores, nos mercados e feiras, numa tradição oral. Numa fase posterior foram “lavados” para eliminar as “atrocidades” e crueldades que os caracterizam. Quem ler estes contos na versão original encontra inúmeros terrores e violências que traduzem os traumas peri-natais.

A natureza dos contos de fadas e a sua actuação

No século XIX os irmãos Grimm começavam a compilar os contos de fadas para, pela sua popularização, provar que a cultura alemã se baseava em mitos antigos próprios. Criaram deste modo um imaginário que, mais tarde, foi utilizado com outros fins pelo nazismo. Outras compilações foram feitas por Perrault em França, que, por sua vez, domesticou a violência dos contos para que a aristocracia europeia os podia apreciar. Finalmente foi o dinamarquês Andersen que preparou os contos para que possam ser contados às crianças. Todos baseiam-se em versões da Idade Média onde a crueldade e violência são muito patentes.


Assim, o Barba Azul não era outra coisa do que uma espécie de serial killer, que é confrontado pelo seu redentor que o mata. O mau é vencido, mas deixa atrás de si um rasto de violência. Num outro conto, o de Hänsel e Gretel, os pais abandonam os filhos, uma vez que não conseguem alimentá-los. A bruxa quer comer as crianças e engorda-os como se de porcos se tratasse. Depois a bruxa morre queimada no forno, eco das caças à bruxa medievais e das fogueiras, onde estas foram queimadas. Nos contos de fadas, a esfera da vida familiar é sempre altamente problemática, reflectindo a dificuldade da adaptação da criança aos padrões familiares e sociais.


O conto Branca de Neve está cheio de subentendidos quanto à relação entre a heroína e os sete anões. Por outro lado, os sete anões simbolizam os sete planetas sagrados e o comportamento de cada um corresponde à respectiva tipologia. O espelho reflecte a cruel passagem do tempo e a maçã fica na garganta de Branca de Neve de modo a que ela parece estar morta.


No conto de fada A Bela e o Monstro, este último é um indivíduo ultra-possessivo que enclausura a amada para a isolar do mundo e aterrorizá-la. O monstro pede-lhe tempo, mas deste modo pode esgotar o tempo de vida dela. Contudo, ela tem paciência até o monstro se transformar em príncipe. Assim, a espera valeu a pena. Este conto fala da estrutura do ego psicológico do ser humano que toma todos os outros seres humanos como monstros. O outro é o monstro, o desconhecido. O outro é incontrolável, não previsível, não dá segurança, nem sequer na constelação familiar. A paciência permite vencer o factor de medo face ao outro em nós, permite ver a humanidade por detrás do monstro. Trata-se deste modo de uma história de redenção através da dádiva da disponibilidade para que o outro se possa metamorfosear. Ou seja, é preciso não confundir a agressividade circunstancial do outro com o seu fundo, a sua natureza verdadeira. O monstro que vemos no outro é a projecção do nosso próprio medo. O nosso medo torna o outro em símbolo de ameaça. Projectamos os nossos medos, a nossa violência, o nosso lado monstruoso, a nossa sombra sobre o outro. O que acontece se não projectarem o monstruoso sobre o outro?


Esta violência que perpassa os contos está em cada ser humano e tem origem nas matrizes primárias da 2.ª e 3.ª fase pré-natal. Os contos recalcam estas fases, tornando-as conscientes nas crianças e nas pessoas psicóticas. No século XX, os contos de fadas foram por isso utilizados em processos de psicoterapia com doentes que reagiram muito bem à sua simbólica. A partir deles faziam-se psico-dramas que ajudaram ainda melhor para que os doentes possam identificar-se com alguns dos papéis arquetípicos dos contos. A sua ligação à vida emocional do ser humano, os seus elementos de encantamento e de metamorfose permitiam a sua utilização com crianças para que a sua identificação com os papéis poderem “sanar” os traumas das matrizes peri-natais. ( Bruno Bettelheim e Reich). Mediante a narrativa ou a terapia que a utiliza, as crianças ou os doentes tornam-se actores do próprio conto e passam de novo pela experiência traumática, normalizando assim a sua relação com os medos e superando as suas angústias.

Os contos de fadas e o sonho

Os contos de fadas têm uma estrutura idêntica ao dos sonhos. Pode-se dizer que construímos todas as noites um conto de fadas quando temos sonhos inquietantes. São narrativas a encantar ou a problematizar as experiências diárias e traumas de nascimento. Como os sonhos, os contos de fadas são narrativas de superação, de sobrevivência e transcendência ao nível simbólico, perfeitamente aceitáveis pela criança que viveu a violência da fase pré-natal, mas não sabe o que é a violência. Os contos servem deste modo a reviver o seu itinerário de nascimento. Assim, o imaginário da violência das fases pré-natais fica menos recalcado e perturbante. Os contos podem levar a uma espécie de redenção da violência, sendo uma proposta de iniciação da qual se pode sair vitorioso.

V.Q.

 
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