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Hermes society

CONTOS DE FADAS PDF Imprimir e-mail

Desenvolvimento humano, arquétipos e meditação activa

Contos de Fadas – fairy tales ou contes de fées – são narrativas arquetípicas que remontam à origem dos tempos e que têm como inspiração espiritualidades vivas. São histórias que descrevem, numa linguagem simbólica e cheia de sageza, o que importa acontecer iniciaticamente no ser humano, como seja a renovação da sua vida interior, a transformação profunda da percepção e do entendimento, e uma relação verdadeiramente compassiva para com a sociedade e o cosmos.


Os Contos de Fadas relatam, pois, a experiência do que acontece quando se ultrapassa a fronteira da consciência condicionada e ilusória, que é o “eu” psicológico, com os seus fantasmas, mitos e medos, os quais, no dizer dos antigos sábios, não passam de meros jogos de sombras e de tigres de papel.

Por isso, tanto no Ocidente como no Oriente, a Meditação encontra algumas das suas chaves de maior significado prático nas narrativas dos Contos de Fadas, que apontam imageticamente para a prática ancestral de espiritualização activa, a qual se traduz – quando correctamente aplicada – por uma mutação diária e constante da consciência de si mesmo e do mundo, o que equivale a ver com novos olhos o ciclo do nascimento, da vida e da morte. V.Q.

                            O construtor de sonhos e a viagem através do Ser

A humanidade é um construtor de mitos e de imagens, ou seja, um construtor de sonhos a partir das suas memórias. Ao nível pessoal, cada um constrói o seu mito que é o seu álbum de fotografias. Todos escrevemos deste modo o nosso conto da fadas, paralelo à realidade e baseado nas nossas memórias. É a história de um herói, de uma heroína de “mil faces” que cada um é e com o qual cada um se identifica.

Assim, nos Contos de Fadas tradicionais, o herói somos sempre nós e é por isso que as crianças adoram estes contos, identificando-se com o herói. Os adultos já não reagem com o mesmo encantamento porque não entram na fantasia do conto. Há, contudo, uma ligação do Conto de Fadas à psicoterapia, uma vez que aquele permite de encontrar em nós o herói positivo e  desenvolver com imaginação a nossa história pessoal, descobrindo que afinal somos nós o autor desta história ficcionada. Assim podemos reavaliar o percurso da nossa história de vida. O psicodrama infantil utiliza os contos com a mesma finalidade. A criança tem muita facilidade de identificar-se sucessivamente com todos os protagonistas dos contos, uma vez que os contos tradicionais têm sempre uma componente mágica, transformando o real em sonho lúcido que permite construir e desconstruir a história ao nosso bel-prazer.

Os Contos de Fadas proporcionam assim uma viagem através do Ser. Todos os povos têm um património de Contos de Fadas e do maravilhoso, que configura um potencial redentor e de gnose, um imaginário libertador pré-religioso, onde o ser humano é o herói da transformação da sua própria vida. Os Contos de Fadas, ao invés das fábulas, por exemplo, não são edificantes, não têm happy end e não pregam a moral de uma determinada sociedade. Podem ser muito cruéis como a própria vida. “O Barba Azul”, por exemplo, fala do exercício do poder pessoal e do prazer em matar; “A Princesa Pele de Burro” fala de uma filha que tenta libertar-se do desejo incestuoso do pai. Os contos demonstram que somos capazes de superar os maiores obstáculos, desvelando o sentido ético da vida, o bem e o belo que apenas se pode descobrir através da experiência própria, no fundo do nosso coração. A auto-descoberta não é um bem pré-formatado, é algo que está em cada um, é a componente ética e libertador em cada um.

                            A origem dos Contos de Fadas

Todos os contos baseiam-se, originalmente, na transmissão oral. Só muito mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, alguns autores franceses e alemães – Perrault, os irmãos Grimm e depois Andersen – configuraram-nos em antologias, misturando-os com fábulas morais e contos de salão. Perrault ainda conserva algo da crueldade original dos contos, os irmãos Grimm já os tratam num registo literário ao passo que Andersen cria contos modernos. Apenas cinco por cento de todos estes contos são Contos de Fadas verdadeiros. Os contos tradicionais portugueses reflectem a época da ocupação árabe da Península Ibérica. Os mouros surgem neles como não-cristãos odiosos, ao passo que às mouras é sempre dado um grande poder de sedução. As “mouras encantadas” são vistas como um perigo, como sedutoras dos cristãos. Prevalece assim a componente repressiva e moral nestes contos e não há tradição feérica e mágica nos contos portugueses. Falta em Portugal este imaginário do sonho transformador e libertador, da demanda original do ser humano. Esta tradição chegou a Portugal apenas em segunda mão, é importada. Mesmo os Templários portugueses não herdaram esta tradição, são uma espécie de cavaleiros de segunda, servindo apenas como carne para o canhão nas cruzadas e na expulsão dos árabes. A tradição trovadoresca, por outro lado, passa pelos Contos de Fadas, e neles se refugiam os mitos do herói corajoso que leva à frente a sua demanda. Os Contos de Fadas reflectem a ordem mitificada de uma sociedade original que é transfigurada para todos os tempos e permite a identificação com uma multiplicidade de papéis para que cada um possa auto-conhecer-se neles como num espelho. São narrativas fora do tempo com uma função redentora, onde a aventura humana não tem princípio nem fim, é eterno e atemporal. Neles podemos descobrir o que é o não-tempo, o Ser fora do tempo sequencial e cronológico. O “Era uma vez…” suspende o tempo cronológico e psicológico. Daí a sua ligação à meditação que é o não-tempo que podemos descobrir em nós.

Por outro lado, os Contos de Fadas convocam também o problema da ilusão – os nossos sentidos enganam-nos, a nossa percepção, em vez de observar, isenta, a realidade, interpreta-a, iludindo-nos com mesclas de realidade / ilusão que se podiam chamar o Yin e Yang da percepção. Assim, os Contos e Fadas são narrativas de origem oral para adultos que transmitem a gnose e sageza originais, popularizando os grandes mitos de origem, vindos das Escolas de Iniciação e que correspondem à aventura humana, ao percurso de demanda, de auto-descoberta e auto-realização do ser humano. Estas Escolas, inicialmente, encenavam estes princípios arquetípicos do ser humano, encenações que se tornaram a base de todas as civilizações, transmitindo um potencial de sageza antiga de geração em geração.

                         Contos da Fadas e auto-descoberta

Através deles podemos descobrir o nosso próprio Conto de Fadas e o elemento transfigurador em nós, o não-tempo. Podemos também descobrir o que é a morte, o que é o momento de morrer e a revisão da vida em dois ou três minutos da qual falam os que voltaram à vida depois de uma experiência de quase morte. Quando a vida biológica está em ruptura, o cérebro tenta dar sentido à experiência da vida. Descobre-se então que  contamos a nossa história de vida a nós mesmos e  que olhamos a nossa vida como se fosse a história de um herói, retendo o que é significativo e sublime. Esta síntese do conto da nossa vida tem a mesma estrutura que um Conto de Fadas, ou um sonho lúcido, com o qual queremos dizer algo a nos mesmos. Ambos são histórias de metamorfose e transformação. É por isso, que tanto na Bíblia como nas sociedades antigas através dos xamãs, a interpretação dos sonhos era para as comunidades um potencial a explorar. A beleza dos três minutos no momento do morrer é como o resumo do sublime da vida. Este happy end depende do que fazemos da nossa demanda de sentido ao longo da vida. Com entendimento intuitivo, podemos explorar o nosso “projecto de vida” como herói / heroína.

                                A Princesa  Pele de Burro

Uma princesa de cabelo louro e pele branca é filha de um rei que tinha uma paixão louca pela rainha, a mãe da princesa. Este triângulo de relacionamento está muito feliz até à morte da rainha. No leito da morte, o rei jura-lhe fidelidade eterna, apesar de a rainha lhe pedir para se casar de novo. Entre todas as candidatas que se apresentam nenhuma igualava a rainha morta, da qual o rei continuava a ter grandes saudades. Quando a filha se tornou numa adolescente muito parecida com a mãe, o rei apaixona-se por ela e quer substituir a mãe pela filha. Esta, contudo, tinha uma fada que a protegia e a ajuda a encontrar uma solução para que o rei não caia na tentação. Diz à princesa para pedir coisas inverosímeis ao rei, para que o casamento pedido pelo pai fosse sempre adiado. A filha pede-lhe assim, em primeiro lugar, um vestido de cor da Lua, depois um da cor do Sol e finalmente, sabendo que o rei tinha um burro mágico pelo qual tinha grande afeição, a filha pede-lhe um vestido feito da pele deste burro. O rei mata então o burro e manda fazer um vestido da pele. A princesa envolve-se neste vestido que a torna muito feia e foge da corte, levando todos os vestidos consigo. Inicia então uma longa peregrinação até chegar a um outro reino onde, numa quinta, encontra uma família que a aceita como servente, apesar da sua fealdade. Durante o dia cumpre todo o serviço que lhe é pedido e à noite, no seu quarto bem fechado, veste os vestidos que trouxe consigo, transfigurando-se face ao espelho. Neste reino onde agora vivia, o rei andava à procura de uma noiva para o seu filho. Os mensageiros de todo o mundo propuseram-lhe as mais diversas princesas, mas o príncipe não gostava de nenhuma. Um dia o príncipe visita a quinta onde vive a princesa. Era ao fim do dia e a princesa já se tinha retirado. O príncipe vê então uma luz esplendorosa por baixo da porta e não resiste e encosta o olho ao buraco da fechadura. No quarto vê a princesa no seu vestido solar. Mas quando abre a porta, descobre apenas uma rapariga feia vestida de pele de burro. O príncipe não consegue esquecer a visão deslumbrante da mulher que viu e apaixona-se pela sua visão. Não sabe onde encontrar a mulher que viu e fica doente. O rei seu pai, para o ajudar, recorre então a uma artimanha. Pede à rapariga feia que faça um bolo para o seu filho. A princesa faz o bolo à noite no seu quarto, envergando um dos seus vestidos. Transfigurada de novo, um anel cai-lhe no bolo. Quando lhe trazem o bolo, o príncipe recupera o apetite, come o bolo e trinca um anel fabuloso e muito delicado. Declara então que apenas se vai casar com a dona do anel. A nenhuma das princesas que se apresentam o anel cabe nos dedos. Finalmente é chamada a rapariga da quinta. Da sua pele de burro sai então uma mão muito delgada e fina e quando enfia o anel, a pele de burro cai e ela apresenta-se em todo o seu esplendor. O príncipe casa então com ela. Entretanto o pai que tinha ficado muito triste depois do desaparecimento da filha, casou com uma rainha viúva sem que esta lhe inspire um verdadeiro amor. Quando recebe o convite para assistir ao futuro casamento da filha, supera a sua pulsão incestuosa, desiste das suas fantasias e faz as pazes com a filha.

                                       Realidade e ilusão

Como este, muitos dos Contos de Fadas exorcizam certas transgressões que põem em perigo o funcionamento normal da sociedade. Contudo, esta dimensão social do conto remete sempre para algo de feérico, algo em cada um de nós que é este monstro feio no qual a princesa se transformara, pois há algo em nós que se sente atraído pelo monstruoso. Por outro lado, isto remete ao facto que a percepção que temos de realidade não corresponde sempre à verdade. O conto em questão, como aliás muitos outros, cria um triângulo arquetípico: 

                   
Reino

Rei              Rainha                                 Céu

       Princesa                                   Fogo / Ar
       (Vénus)


 

Este reino, por sua vez, espelha-se num outro, cumprindo a máxima hermética “O que está em cima é como o que está em baixo”.

Príncipe                              Água / Terra
(Marte)

Rei           Rainha                                    Terra

                             
Reino

A relação entre ambos os reinos é estabelecida pela princesa e pelo príncipe sobre o fundo de um repertório mágico-astrológico, que corresponde a instâncias em nós que impõem uma nova ordem. Trata-se, neste conto, de dois reinos diferentes, o primeiro é lunar e crepuscular, o segundo solar e auroral. Na base, contudo, está o problema da sedução e do desejo. A princesa transita entre ambos os reinos, dispondo de um pacto íntimo com os quatro elementos, representados pelos quatro vestidos, utilizando o imaginário alquímico. A sua viagem de um reino para o outro simboliza o percurso interno da vida e da organização dos três princípios de expressão arquetípicos em nós, a inteligência intelectual, a inteligência emocional e a inteligência psicomotora.

                               A floresta de todos os enganos

Doutro conto, “O Capuchinho Vermelho” são transmitidas duas versões. Numa, o lobo é um monstro terrível noutra, um animal obediente e submetido ao ser humano. O lobo é assim altamente ambivalente nos Contos de Fadas e possibilita espelhar a natureza ambígua do ser humano no seu constante lusco-fusco. A floresta, por sua vez, presente em muitos contos e sonhos, reflecte aquilo em nós que é o desconhecido, o local de todos os perigos, ameaças e riscos. É o lugar de riscos de perda, de encontros sombrios e lunares, do confronto com os monstros. Simboliza assim a consciência psicológica na sua ressonância crepuscular e ilusória, o que C.G. Jung chamou e inconsciente colectivo. Aí jogam-se os grandes dramas da consciência humana, ela é a matriz da luta entre luz e sombra, entre vida e morte, entre todas as dualidades e da divisão binária fundamental entre luz e trevas. Serve como proposta arquetípica da divisão lunar e solar, entre uma parte que se mostra e outra que se esconde. Nela jogam-se todas as contradições. Trata-se de um inconsciente não localizável no ser humano. É uma espécie de estrutura de fronteira entre a vigília e o sonho que propõe material de “floresta” à nossa experiência, onde nos podemos perder. Os Contos de Fadas pega na nossa floresta pessoal, na nossa sombra e dá-lhe uma estrutura organizada.

                            Contos de Fadas e matrizes peri-natais

O cérebro utiliza o sonho para reorganizar a experiência de vigília. Durante esta última e com a ajuda das redes neurónicas focamos apenas dez por cento, ou seja, apenas um ângulo muito pequeno desta experiência que, além disso, é fortemente viciada pelo condicionamento dos traumas do nascimento ( matrizes peri-natais formuladas por Stanislav Groff), da educação e da formatação social. Os Contos de Fadas e o seu imaginário psico-genético estão inscritos em cada um de nós através das experiências pré-natais e de vida. A criança, no ventre da mãe, nada no líquido amniótico que é uma espécie de amplificador de todos os sons. Assim o feto tem perfeita consciência de tudo o que se passa à sua volta. Durante os nove meses de gestação passa por quatro fases:
1 - Sentimento oceânico onde se sente como no paraíso, altamente protegido num equilíbrio homoestático.
2 - No momento da ruptura das águas é exposto a uma tensão de insegurança absoluta e é ameaçado de ser expulso do estado de segurança anterior.
3 - No momento das contracções regista uma enorme angústia e passa por uma experiência traumática que é origem de todos os medos e especialmente do medo do escuro. A passagem pelo colo do útero no processo de dilatação é o primeiro encontro com a ameaça da morte.
4 - A última fase do nascimento propriamente dito é o confronto com um mundo desconhecido.
A segunda e terceira fases são as mais problemáticas e são estas que são exploradas nos Contos de Fadas. Dai a grande crueldade de alguns deles, onde os traumas do feto repercutem. A demanda repete, de certa maneira, as fantasias e episódios do trajecto pré-natal, que condiciona toda a psique do ser humano. As suas alegrias e os seus medos, assim como toda a sua estrutura emocional estão lançados através deste trajecto. A hipnose é capaz de nos fazer regressar a estas fases. As psicoses são o retorno às matrizes pré-natais. A importância da estrutura arquetípica dos Contos de Fadas se confirma ainda se realizamos que nascimento e morte têm matrizes semblantes, que o trajecto da morte inverte as quatro fases como se fossem vistas num espelho. Ela é um nascimento ao contrário que precisa de um guia, de uma parteira. Na morte podemos eventualmente ser confrontados com todas as traumas que vivemos no nascimento, sendo ela uma espécie de segundo nascimento e ambos um percurso de dentro para fora. Os Contos de Fadas simbolizam nas suas figuras, na bruxa, no lobo, no logre, etc. etapas deste percurso.
                                         “A mãe Holle”

As duas raparigas deste conto são antagónicas, são luz e sombra no ser humano. A loira (solar) irradia, está completamente aberta ao meio, disponível a trocas que enriquecem e potenciam a interacção com o mundo, é corajosa e vive o máximo do seu potencial generoso. A outra, morena (lunar), é altamente auto-centrada, fechada sobre si mesmo e predadora nas relações. Utiliza as relações como estratégia de sobrevivência, divide as pessoas em amigos e conhecidos, nos que dão algo e nos que se têm apenas de aturar. Por isso está distraída, sem verdadeira capacidade ao diálogo e de interacção com o meio. Vive apenas uma parcela mínima do seu potencial. O alcatrão que lhe cai em cima ao fim da sua experiência é a “noite de breu”. A generosidade, a gratidão e a superação do medo ou seja, a coragem, são os elementos de redenção neste conto. A demanda é a viagem através do campo de experiência da nossa vida que desafia para esta superação.

                                  O percurso iniciático

O percurso iniciático descrito pelos Contos de Fadas segue o dos grandes mitos e lendas, por exemplo o da Lenda do Rei Artur, ou seja, da demanda do Graal. Nesta encontra-se, no fim do trajecto, um objecto abençoado, um elemento de redenção crístico. As iniciações repetiam simbolicamente este processo num espaço sacralizado com várias provas e a respectiva superação que leva à iniciação. O sonho lúcido é um sonho organizado que pode ter a mesma estrutura. Os avateres seguem este percurso como o faz Cristo na morte na cruz e na ressurreição.

No conto “Os Músicos de Bremen” descobrem-se as diferentes fases deste percurso. Trata-se de quatro animais ameaçados de morte que fogem para sobreviver. O burro simboliza o elemento Terra, a psico-motoricidade, o metabolismo, a capacidade de agir e realizar, a vontade. O cão é do elemento Água e representa a esfera da inteligência emocional, sendo o símbolo da fidelidade. O gato é do elemento Ar e simboliza a inteligência cognitiva. O galo, finalmente, é do elemento Fogo, simbolizando o despertar, sendo um animal de fronteira entre dois mundos, entre noite e dia, o anunciador do ciclo solar, relacionado à esfera do quarto cérebro, a dimensão da redenção no ser humano. Ele é o potencial criativo em nós, o herói que aceita o risco e enreda pelo percurso iniciático. 

                  Os três níveis de inteligência do Ser Humano

Em cada nível de inteligência do ser humano há elementos solares e lunares, há expansão e contracção. Os três níveis são as estruturas conflituais em permanente movimento e oscilação entre centro e periferia, entre extroversão e introversão, numa dinâmica bipolar face às circunstâncias. Quando nos sentimos seguros, abre-se o jogo, quando sentimos perigos ou ameaças fechamo-nos e perdemos as capacidades comunicativas em todos os três níveis. Ao nível do pensamento, fechamo-nos nas nossas opiniões; ao nível de emoções, respondemos com grande reactividade; ao nível psico-motor há um bloqueio total.

É preciso detectar as razões para o medo, para a insegurança, para o corte de comunicação. Os Contos de Fadas permitem localizar e exorcizar estas razões. Vejamos a história “Os Três Porquinhos”.
Para os três porquinhos se protegerem contra o lobo da floresta o primeiro constrói uma casa de palha onde toca flauta; o segundo constrói uma casa de madeira onde toca violino, o terceiro constrói uma casa de tijolo onde toca piano. O lobo derruba facilmente as duas primeiras casas, na terceira tenta entrar pela chaminé, cai num grande caldeirão de água quente e acaba de ser comido pelos três porquinhos. As três casas e instrumentos correspondem, respectivamente, a primeira, à inteligência cognitiva, a segunda, à inteligência emocional, a terceira, à inteligência pisco-motor e visceral. Esta última é a estrutura mais fiável. É o centro que nas artes marciais se chama Hara, o ponto mais sólido que temos em termos psicológicos. Esta inteligência visceral é a base de toda a nossa estrutura, é a nossa casa que permite a sobrevivência. O piano  é-lhe agregado como instrumento de grande escala, de percussão e ritmo, simbolizando o verbo ou seja, a acção. O violino é o instrumento emocional por excelência, permite tocar melodias e entrar em interacção com outros, adjectivando. A flauta é o instrumento mais primitivo que simboliza a harmonia e imaginação, ligado ao substantivo. O primeiro porquinho vive na ansiedade de expectativas, produzindo ilusões fantasmagóricas para perpetuar a vida num futuro imaginário. O terceiro porquinho está no passado, vincula-se à memória lunar. Tem uma atracção especial para a sua própria história que é puramente ficcional na sua interpretação subjectiva do como reagiu aos acontecimentos. O segundo porquinho vive o presente e está ligado ao sentir, ao imediato de uma linguagem não verbal. A palavra é um lugar seguro e pode servir como trampolim para a descoberta do desconhecido, pode abrir a passagem do verbal ao não-verbal.

Os Contos de Fadas transmitem uma sageza intuitiva e não científica que conhece perfeitamente a tripartição do campo da consciência psicológica do ser humano. Esta dá apenas para a sobrevivência ao passo que por detrás dela está o próprio Ser, a proposta de transformação da estrutura biológica em ser individual. Neste sentido pode dizer-se que todos têm uma vida, mas poucos são. Nos Contos de Fadas é o herói ou a heroína que andam à procura do Ser, no percurso que atravessam procuram o seu próprio ser, uma vez que não basta ter uma vida, é preciso ser. A pergunta que põem é: será que sou mais do que a minha vidinha, que sou mais do que a minha experiência vivida? 
                            
                                    Estado de Atenção

A diferença está no estado de Atenção, ele permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos do Ser. Jung chamava a isso o processo de individuação, um processo não previsto pela natureza. Graças ao estado de Atenção é possível despertar o Ser, transformar o ter em ser. Este estado acontece no AGORA sem que haja expectativas de um futuro fantas-magórico, nem distracção com as memórias. O estado de Atenção dá-se no presente e relaciona-se com o sentir numa percepção imediata no AGORA sem que haja espaço para reactividade. É a zona do coração que é compatível com o estado de Atenção, livre do passado e do futuro. O herói / a heroína situam-se neste espaço, avançam passo por passo num processo de constante transformação e mutação sem jamais distrair-se com o passado ou sonhar com o futuro. Viver assim é a única maneira de experimentar o Ser. Se cairmos na distracção e nas expectativas, apenas sobrevivemos. Os Contos de Fadas indicam assim o elemento central do processo, o sentir no presente (o violino na história “Os Três Porquinhos”). O estado de Atenção é total disponibilidade que, por sua vez, traz o silêncio para escutarmos e sentirmos sem interpretação psicológica. Trabalhamos então com uma linguagem imediata e intuitiva que permite sentir o outro, o espaço e o meio.
                                        O verdadeiro Despertar

Os Contos de Fadas explicam a relação entre símbolo e a natureza humana no seu comportamento psicomental. Não existe perfeição nestas três estruturas de sensação, isto é um mito. O comportamento ético face às situações surge por dentro em cada momento. É a voz do galo no conto “Os Músicos de Bremen”, o “sei que não sei” face aos desafios, é algo em nós que se apercebe quando a noite se transforma em dia. À noite estamos adormecidos e sonhamos num nível inconsciente, no dia despertamos deste mundo lunar que se exprime apenas por memórias e expectativas. A questão é de despertar verdadeiramente e viver em estado de Atenção. Se nos tornamos conscientes da nossa noite, se a conhecemos, a transformação pode fazer-se. Assim o galo é discernimento e o estado de Atenção. Este é o elemento que transforma a noite em dia, uma vez que permite ver a noite e o dia simultaneamente, ao passo que, distraído, estou ou na noite ou no dia. Este estar entre dia e noite ultrapassa a dualidade.

Em conflitos, por exemplo, o estado de Atenção permite colocar-se num ponto por além das duas partes do conflito, age-se então sem justificação, sem emoções reactivas e sem defesa do seu próprio território. Deste modo não se alimenta o conflito, fazendo dele um problema. Neste contexto percebemos que o nosso espaço interior não tem geometria definida, é um espaço sem contornos em constante configuração.

                                      O tempo suspenso

O conto “A Bela Adormecida” coloca sobretudo o problema do tempo. Quando a princesa adormece, o tempo fica suspenso. Já encontramos, no conto “A Princesa de Pele de Burro”, outro sinal deste não-tempo no seu vestido do tempo. A paragem do tempo significa silêncio que nos coloca por além do campo da consciência psicológica. O príncipe (e o galo) anuncia o dia como não-tempo. O campo de consciência psicológica serve apenas para a sobrevivência, a consciência anunciada pelo príncipe é o próprio Ser como proposta de transformação da estrutura biológica em Ser individual. Todos podem ter uma vida, poucos são. Nos Contos de Fadas, o herói anda à procura do Ser, de ser ele próprio no percurso que atravessa. Não basta ter uma vida, é preciso ser. Põe-se então a pergunta se somos mais do que a nossa vidinha, mais do que a nossa experiência de vida.

O estado de Atenção permite ver se agimos em termos de vidinha ou em termos de Ser. Descobrimos então o processo de individuação, processo que não está previsto pela natureza. Este despertar, pelo beijo, do estado de atenção transforma o ter em Ser.

                        A transgressão do pacto de obediência

Por outro lado, o sangue no conto “A Bela Adormecida” que jorra de um dos seus dedos, é uma referência à primeira menstruação, um fenómeno biológico que adquire valor simbólico como aliás, nos contos, todas as cores representarem estados de espírito. O vermelho (Capuchinho Vermelho) está ligado a Marte, ao sangue, ao desejo e à vontade. Remete para o desejo de transgressão que é o pecado original, o transgredir do pacto de obediência que permite crescimento, não é visto como um mal, mas como transgressão das normas que impedem o crescimento. É o Capuchinho Vermelho que seduz o lobo e o lobo come a avó que representa a norma social. Em “A Branca de Neve” e em “A Bela Adormecida”, o beijo é o toque mágico que desperta para a vida e o príncipe iguala, em termos simbólicos, o galo. São ambos o princípio activo que anuncia o dia, a luz solar que anima as três zonas de sensação, representadas pelas princesas.

A floresta, nos Contos de Fadas representa a primeira e a segunda zona de sensação que, no Tarot, correspondem à carta do Diabo que é Lúcifer, o anjo caído. Ele introduz a curiosidade, o desejo activo do conhecimento. Este desejo, muito presente nos Contos de Fadas, está ligado ao sentir e leva à transgressão. A repressão do desejo empobrece a vida, deixamos de ser o herói se desistimos do desejo e funcionamos apenas no registo de um animal de hábitos.

                                          A força do desejo
No conto “João e o Pé de Feijão”, o jovem rapaz é, aos olhos do mundo, um simplório que vive a sentir as coisas. A mãe pede-lhe para vender no mercado a única vaca que têm, porque já não têm com que alimentar-se. No mercado oferecem-lhe em troca da vaca um saquinho com três feijões mágicos. Curioso como é, João aceita esta troca. De regresso à casa, onde a mãe se zanga muito com ele, João planta os feijões no jardim. Durante a noite cresceram, formando uma escada que João vai subindo, obedecendo ao seu desejo de ver o que está lá em cima, de descobrir o desconhecido, o mistério da vida. Chegado às nuvens, encontra um gigante terrível que o ameaça. Depois de várias peripécias João consegue fugir, levando o tesouro do gigante.

Quando o desejo pode fluir livremente, permite-nos ser, ou seja, sentir cada momento. Ele é uma força de libertação, uma força indomável.
É o desejo alimentado pela curiosidade que propõe a viagem pessoal. Mas desde a nossa infância alguém nos diz constantemente: atenção com os perigos, é melhor não ires, não fazeres isto ou aquilo. Os riscos surgem sempre da floresta (do nosso inconsciente), que nos descrevem como lugar de todos os perigos e da escuridão. Contudo, a floresta é fabulosa, propõe mil aventuras e nós precisamos do sentido de aventura, sem ele o herói não pode florescer em nós. Não podemos cortar o desejo em nós, não podemos recalcá-lo e apenas imaginar a viagem. Nascemos para a nossa viagem pessoal e temos de descobrir a cada momento o desejo de sentir a viagem e o desejo de intuir o silêncio. É o desejo indomável do qual brote a criação do mundo e os nossos sentidos são os veículos da viagem, não devemos excluir nada da nossa experiência.

É o galo que representa este desejo ligado ao elemento de fogo. O mito de Prometeu é-lhe dedicado e indica que o desejo é transgressão e desobediência mesmo contra os deuses. O fogo que Prometeu vai roubar aos deuses é o desejo indomável, sem ele não há vida. Por outro lado, há uma sageza do desejo que assenta na compaixão, deixando intuir o movimento do desejo para que não sejamos crucificados entre o passado e o futuro. O que intui não é “história de vida” – o desejo em directo é uma experiência que não deixa resíduos, é uma experiência sem apropriação. É na apropriação que matamos a experiência e o sentir. Se não nos apropriamos dela produz-se apenas aprendizagem e não uma memória fantasmática do actor. Deste modo, o eu não acumula. Quando nos apropriamos da experiência, criamos memória, aprisionando e dominando o outro no nosso ódio ou no nosso amor. O herói dos Contos de Fadas é o desejo no ser humano. Para a vida ser viagem de conhecimento temos de pôr as três zonas de sensação ao serviço da consciência intrínseca.

                                    Transmissão directa

O trabalho com a tradição oral permite uma transmissão directa que apoia a luta contra o esquecimento que ameaça permanentemente o trabalho sobre si mesmo. É um trabalho tremendamente volátil, uma vez que as nossas neuroses não permitem acumular informação, que se baseia na percepção em estado de Atenção. A transmissão directa é um sistema de trabalho que desperta no outro algo, uma natureza adormecida, que está em cada um. É esta instância adormecida que pode despertar é, não se pode acrescentar nem tirar nada ao Ser. Há em nós um jogo do Ser e Não-Ser. Ele é “A Bela Adormecida” em nós que desperta através do sentir, da sensação directa associada ao estado de Atenção. Ser é a forma de nos relacionarmos directamente com as coisas, sem julgamento, sem adjectivação, comparação e sem condicionamento em pura experiência do presente – as coisas são como são.

                                     A alteração da Percepção

Quando se fala em iniciação, coloca-se a questão se é possível viver no presente, provocando uma alteração da percepção das coisas. O ser humano tem uma desvantagem em relação a outros ser vivos – não vê as coisas como elas são, não tem uma percepção imediata das coisas, uma instantaneidade da intuição, um fazer imediato. Esta percepção existe em nós, mas está adormecida (as artes marciais tentam despertá-la). Esta percepção permite agir sem intervenção do pensamento. Nós queremos normalmente percepções domesticadas, queremos que nada mude que tudo fique como sempre foi. Queremos que o outro esteja sempre igual às memórias que dele temos, e não percebemos que a percepção se torna uma armadilha quando tem como referência o passado. A imagem fixa que temos das coisas, actualizamos com alguma dificuldade porque recorremos sempre à comparação. Temos de verificar que a percepção pode ter duas cargas diferentes, uma objectiva outra subjectiva. A sensação directa fornece uma percepção objectiva, vemos sempre como se fosse pela primeira vez. Todos os dias, a todos os momentos devíamos entrar neste jogo da percepção pela primeira vez.

Nós tingimos o mundo com a subjectividade do nosso eu e assim não o vemos como ele é. Este eu é uma síntese de milhões de anos de evolução da espécie. Temos de passar da subjectividade do eu de sonho para a objectividade do estado de Atenção. Os hardwares de todos os eus é igual, e as suas experiências também, todos têm o mesmo medo, as mesmas felicidades, o mesmo amor e ódio. O eu funciona como um círculo à nossa volta que nos separa da consciência intrínseca ou seja, do mundo e do outro. O eu é comum a todos nós, as nossas sensações e sentimentos são iguais aos dos outros. O estado de Atenção ou a prática incolor como o chamava Patanjali, no seu tratado sobre o Yoga, leva para além da colorização que cada um dá ao eu, leva para além do eu que construímos como se fosse à parte do resto, como se fosse diferente, mas nós somos o resto.
O eu convergente não é capaz de verdadeiras interacções, só um eu divergente, ou seja, só em estado de Atenção pode haver interacções. Se delimito o eu, delimito a consciência psicológica e estou em consciência pura que não tem limites nem configuração. Qualquer tradição iniciática trabalha a consciência pura, a consciência sem círculo. É neste estado que já não há território que pode ser ameaçado pelo outro e assim cessa qualquer medo. Suprimindo a ilusão territorial que é o eu e a minha chamada história pessoal, com a qual me quero diferenciar dos outros, uma vez que o resto (as emoções e sensações) é igual para todos, vive-se plenamente numa interacção alargada e num novo estado de percepção. Deste modo saímos da aldeola do eu circunscrito e limitado para viver no universo.

                             A viagem do Louco e a tradição

Os Contos de Fadas remetem sempre para uma primeira vez. Assim por exemplo no conto “O Rapaz que Partiu para Apreender o Medo”. O primeiro elemento do conto é o trajecto do rapaz tido por tolo, que é o Louco do Tarot, o herói que corre mundo. A viagem iniciática é sempre algo de louco nos olhos do mundo. O jovem do conto é um imprestável que não corresponde às expectativas do mundo e que parte numa demanda do medo. Vê que o seu irmão está cheio de medos e ele, ao qual nada faz medo, que conhecer esta emoção. Se o mundo seguia o senso comum, ele não, mesmo se ficasse pobre o resto da sua vida; mas ele ganha um reino, o reino da sua própria consciência intrínseca. Ele passa do círculo do eu e vai para além, conquistando um reino e riquezas inacreditáveis. O génio, um velho de barbas que remata esta história, é o senhor do tempo. O herói descobre que o tempo é o gestor dos medos e negocia o medo com o tempo.

Não é o tempo das coisas que nos faz medo, mas sim, o tempo psicológico. Contudo, o jovem não resolve o problema da pele de galinha que o irmão conheceu e continua a ter inveja dele. Aprende então com a mulher e compreende que o medo é a tensão da comparação, introduzida pelo tempo psicológico. Na comparação envelheço as situações, mato-as. Saturno, o senhor do tempo, é assim também o senhor de todas as comparações. O tolo é simplesmente, vive a realidade sem tempo psicológico, tendo deste modo outra relação com ela. Viver no AGORA significa pensar, sentir, agir num estado sem motivação, sem objectivo que fazem que tenho medo de não conseguir a meta ou depois perder o que alcancei. Ter medo revela-se uma falsa questão, o medo é um tigre de papel que apenas existe na visão do eu.

Há duas maneiras de agir – por motivação ou compulsão ou por auto-conhecimento. A tradição é um património de experiência feita, um pacote que herdamos. Quando a recusamos para insistir na nossa própria demanda, rejeitamos as expectativas e a motivação de acção dos pais ou do meio social. Com ela rejeitamos um sistema de auto-reprodução sem inovação. O tempo herdado é tempo psicológico. Por isso, os artistas tem, em cada geração, romper com o conjunto de tradições para ir à origem, recomeçar a criação, criar de novo. A ruptura com o sistema é sistemática na criação artística.

Nos Contos de Fadas, o auto-conhecimento na sua estrutura arquetípica está a flor da pele, é terapêutico na medida que traz elementos que desfazem o stress psicológico. A sua linguagem dirige-se ao inconsciente. Revela-nos que há dois registos cerebrais – o cérebro que trabalha com uma abordagem de utilidade, que é o cérebro direito intuitivo e criativo, e o outro que trabalha identificando-se com o protagonista. O herói vai pela percepção directa e intuitiva, pelo hemisfério direito.

Este herói em nós é o filho pródigo e a sua demanda. É o tolo em nós, o Louco que parte de uma família comum e chega a uma família exultante, nova. Há em cada um de nós um percurso féerico, uma capacidade de viver a realidade tal qual ela é, não precisamos de alterar nada. A vida faz sentido à partida. O fantástico já cá está, a dimensão mágica e deslumbrante já está em nós, nos apenas esquecemo-nos disso, é o lado adormecido em nós. Em “A Bela Adormecida” é a relação causa – efeito mágica que faz que a princesa encontre o príncipe. Há algo que acontece sempre no presente, como se fosse pela primeira vez, se estivermos disponíveis de momento a momento e é esta a única maneira de viver magicamente. Na criação não existe a segunda vez – “O mestre só fala uma vez”, e a nossa vida é como o mestre. A consciência psicológica cria esta convicção que deve haver uma segunda vez.

                                   O espelho fragmentado

Não nascemos para criar uma história pessoal medíocre que é esquecida uma semana depois da nossa morte. Ninguém se interessa pela nossa vida, uma vida que é muito fragmentada, que não tem remédio como ficção. O iceberg só mostra a ponta que emite sinais fragmentadas, a vida é um espelho despedaçado, não pode reflectir uma imagem coerente. O que custa na morte é que temos apenas estilhaços nos quais vemos a nossa cara. É este o pânico do findar do pequeno círculo do eu. A magia é o caminho do meio, é viver e morrer sem ganho.

Como é que podemos activar o herói em nós? Ele não é o eu construído socialmente, é uma espécie e anti-herói com uma história ilimitada. Há algo em nós que escreve uma história mágica em nós que por vezes aparece em fragmentos nos nossos sonhos, sonhos perturbantes com timbre féerico e uma carga simbólica. É este o herói de iniciação. O eu e herói não podem coexistir. Temos de sentir à partida o que há de mais original e inquietante que transforma o percurso e a vida em algo que é realmente só nosso e que interessa a todos os seres humanos. Não é a nossa história. É a do herói em nós, é a natureza heróica que assume a nossa forma. A história arquetípica que tem para contar é uma história de iniciação, não uma história de vida. ( É esta a história de Sócrates, contada por Platão ou a de Ulisses – uma aventura de herói, e não da personagem.)  Há assim um percurso paralelo em nós, um processo de sageza que deixa de fora os eventos da vida, um percurso de auto-descoberta, uma odisseia sempre nova. A aventura iniciática é sempre diferente de todas as outras, ao passo que a história de vida é quase igual em todos os seres humanos.
                                    
                                         O Herói Solar

Para o herói solar que está por detrás de todas as reencarnações, estas só interessam se tiverem elementos libertadores. Cada vida no presente é um resumo da história do universo de biliões de anos. O herói é atemporal, transversal ao tempo, um peregrino inquieto e indomável e não se deixa prender numa gaiola. Ele não se envolve nas artimanhas fantasmagóricas do tempo, aprende a vida doutra maneira e tem uma percepção que não se baseia na comparação.

A percepção mágica tem o poder de mutação do indivíduo, um elemento de redenção que a consciência psicológica destrói. Temos de escutar o herói em nós que não acumula experiências e não leva bagagem consigo. Jesus é o paradigma deste herói solar que diz: “Não tenho local onde repousar a minha cabeça.” É um herói sem domicílio terrestre, como aliás todos os avateres, ou seja, representações / incarnações do herói como o Buda ou outros: “Se queres saber quem é o herói, encontra-o em ti mesmo.” Ele está intrinsecamente em cada um de nós e tem uma percepção de sensação directa, uma motivação única de pura consciência-energia individuada, feita indivíduo. Ele não tem história, é ninguém, não tem identidade, não se identifica nem ao passado nem ao eu. Existe enquanto história universal, desejo de expressão e desdobramento de um desejo único – a auto-realização. Não se apodera da vida como experiência, não tem história pessoal, mas uma história de iniciação fabulosa. O herói é impessoal. Nós não podemos servir dois senhores – ou estamos no registo do herói ou no registo do eu. O herói fala dos seres humanos, não de si.

  A magia do Real

Qual é o factor de transformação? Ausência absoluta de história pessoal, o discurso é sobre o herói do outro, o único interesse reside na vida do herói do outro. Há uma consciência intrinsecamente generosa que não se apodera de nada. O chamado voto de pobreza significava originalmente isso – a promessa de não se apoderar de nenhuma experiência, e o templo era o lugar do herói para o qual não pode levar nenhuma riqueza deste mundo. ( nos tempos mais recentes Krishnamurti vivia assim). A percepção altera-se profudamente nesta perspectiva, é completamente nova no viver no AGORA. Damo-nos conta que, a cada momento vivido, só podemos escolher entre duas coisas – ou apoderar-nos do momento ou viver o seu encanto sem projecção do passado para que a magia do real não se perder.

A morte será um momento inglório se não for vivida no AGORA. Tornar-se-á então no momento mais importante de uma vida. Nascemos para ser heróis impessoais da nossa vida que tem sempre sentido. Transversalmente, por detrás está o herói num percurso iniciático único, de momento em momento. Na prática é a respiração que nos traz para o momento. Sacrificamos o momento à nossa tranquilidade, projectando-nos no vazio do estado de Atenção:
         
Energia – consciência
Herói

Sensação directa
a cada momento

Ser
Experiência irrepetível
e única
Estar no momento
sem construção do eu

A presença do Ser configura-nos de maneira diferente, instalando a bem-aventurança da consciência intrínseca e leva à compassividade e à experiência da vida tal como ela é, uma experiência da unidade de todas as coisas. 

                                       O florescimento do Ser

O pensamento é então sageza, o sentimento de pura compaixão e sensação da unidade de todas as coisas. eu e o outro somos uma e a mesma coisa. A acção tem uma única motivação – o florescimento do eu à sua maneira. Este florescimento do Ser em nós encontra a sua própria sageza, não se alimenta da sabedoria dos outros. Apaixonar-nos pelo Ser em nós é a paixão de todas as paixões. O resto é teatro de sombras. Para poder descobrir este Ser único é preciso ousar de sair da nossa casa, do eu. O ciclo vital de cada vida serve a isto e a mais nada. É esta a descoberta que o príncipe faz no conto “A Princesa Pele de Burro” quando olha pelo buraco da fechadura, tendo um vislumbre do Ser que está do outro lado, que está em cada um de nós. Este deslumbramento faz nos descobrir a comédia do eu com a sua busca de auto-preenchimento e posse do objecto e do outro que traz logo a seguir o medo de o perder. Só então podemos deixar de ser predador do outro, na nossa constante procura de auto-satisfação. O eu corta logo as relações quando o outro nega de espelhar a nossa imagem. Exigimos do outro constante compensação pessoal e desenvolvemos estratégias de sobrevivência emocional que trazem ressentimento e colocam uma armadura à nossa volta.

No registo do Ser sentimos que iniciamos a viagem e que deixamos tudo de fora que não somos. Viver em estado de Atenção significa permanente disponibilidade e abertura. Tornamo-nos então donos das nossas vidas, criamos a nossa vida. A iniciação é isso mesmo.

V.Q.
 
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